sábado, 30 de junho de 2018

ALFREDO STERNHEIM - ENTREVISTA COM O CINEASTA




Diretor e roteirista. Um dos sobreviventes da geração que surgiu na década de 1970, na lendária Boca do Lixo, na região central de São Paulo. Mesmo com textos que seguiam a cartilha de esquerda, conseguia driblar a censura do governo militar da época, através dos filmes que lançava, sempre com revestimento nitidamente erótico. Também atuou como jornalista e autor de livros sobre cinema. Atualmente é consultor da série "Magnífica 70", produzida pela Conspiração Filmes.   


A ENTREVISTA


EMERSON LINKS

Naturalmente, vamos começar falando da sua carreira antes de idealizar o primeiro longa-metragem de sua carreira como diretor. Você sempre quis realizar esse tipo de trabalho em cinema ou tinha em mente se aprimorar em outro segmento?

ALFREDO STERNHEIM

Ainda na adolescência, pensava somente em ser ator. Mas, após assistir as filmagens de "Osso, Amor e Papagaios" durante dois dias (era figurante), minha ambição se tornou mais ampla. Passei a ter vontade de dirigir, de fazer filmes também. Mais tarde, desisti de ser ator.

EMERSON LINKS

Quais são suas maiores lembranças sobre a história do cinema? Cite influências, tais como gênero de filme, atores e diretores?

ALFREDO STERNHEIM

Não sei precisar. Gosto dos mais variados gêneros. Inclusive musicais Mas só me foi permitido fazer dramas, policiais e comédia. Mas tenho meus diretores preferidos: Billy Wilder, Alfred Hitchcock, Max Ophuls, Ingmar Bergman, Douglas Sirk, Zeffirelli, Blake Edwards, Louis Malle ...




EMERSON LINKS

Como foi a sua experiência em seu primeiro trabalho de direção “Paixão na Praia” (1971)?

ALFREDO STERNHEIM
  
Difícil. Com a típica insegurança de uma estreia na direção de um longa metragem. Ainda  por cima, com muitas limitações econômicas: 18 latas de negativo apenas, 18 dias de filmagem. Mas acho que me sai bem!




EMERSON LINKS

Você trabalhou também com grandes comediantes como Norma Benguell, Adriano Reis e Ewerton de Castro em “Paixão na Praia”. Qual foi a sensação de fazer parte disto? Você já tinha consciência de estar trabalhando em algo que seria reconhecido como clássico no futuro?

ALFREDO STERNHEIM

Não tinha consciência – e creio que ninguém tem – de um futuro reconhecimento como clássico. Norma já era uma estrela internacional e tinha convivido com ela em “Noite Vazia” (1964), quando fui assistente de Walter Hugo Khouri. Adriano era um ator popular e Erton, eu o descobri no teatro, fiquei espantado com aquele talento incrível no palco, escrevi o personagem pensando nele. Nesse filme trabalhei também com Lola Brah, uma atriz mítica de nosso cinema. Escrevi pensado nela. Acabou se transformando em grande amiga. Foi emocionante poder contar com eles no filme. 

EMERSON LINKS

No ano seguinte, você dirigiu o longa “Aquelas Mulheres” (1973). Comente suas experiências ao participar desta produção.

ALFREDO STERNHEIM

Fiz um episódio que ficou inacabado na finalização sonora. Como todo o longa. O meu episódio tinha Lillian Lemmertz, Roberto Bolant e Sergio Hingst. Foi estimulante na filmagem, mas triste ao ver que não iria ser finalizado.




EMERSON LINKS

Ainda em 1973, você dirigiu o filme “Anjo Louro”, onde a atriz Vera Fischer se consagrou, dividindo cenas com os saudosos Mário Benvenutti e Celia Helena. Esse seu trabalho foi proibido pela censura federal da época na quinta exibição. Quais foram suas impressões sobre esse trabalho posteriormente?

ALFREDO STERNHEIM

Gosto muito do filme, acho que resistiu ao tempo, mas ficou prejudicado pelos cortes impostos pela Censura Federal da Policia Federal então dirigida pelo repressor General Antonio Bandeira. Não perdoou  a sua arbitrariedade. Eu o odeio assim como o chefe da censura da época Rogério Nunes. Faço questão de declinar o nome desses senhores autoritários que serviam a ditadura militar.




EMERSON LINKS

Por que, no seu entender, as comédias românticas passaram a ser taxadas de "pornochanchadas", um rótulo incomodo (para alguns realizadores) e que se prolongaria por décadas. Qual visão você tinha deste trabalho na época?

ALFREDO STERNHEIM

A minha visão e a de muitos na época é a que estávamos fazendo cinema.

EMERSON LINKS

Não fui eu que criei esse rótulo de "pornochanchadas" e sim os críticos da época (releia, por gentileza, a minha pergunta acima se for o caso). E se as comedias eram taxadas de pornochanchadas pela crítica dessa forma, então que os profissionais desta época se retratem. Verifique que na sua entrevista para a Zoom Magazine, o jornalista se refere ao termo, publicada em 11 de abril de 2016). Também considero "pornochanchada" um rótulo incomodo para os realizadores dos anos 1970. Pois bem... Vamos a próxima pergunta. (...) Em “Lucíola, O Anjo Pecador” (1975), você trabalhou com Carlo Mossy e Rossana Ghessa, desta vez numa adaptação de um romance de José de Alencar. Quais as razões de optar por uma adaptação e não por outra história original?

ALFREDO STERNHEIM

Foi escolha do produtor Alfredo Palácios. E fiquei feliz com a escolha do livro e o fato de me chamarem para dirigir. Uma benção que me levou (junto com o filme) ao IVº Festival Internacional de Teerã em 1975, certame que tinha  filmes e e presenças de Lina Wertmuller, Antonioni,ves Boisset,  William Holden, Rex Harrison, Charlotte Rampling, Dyan Cannon  e outros Foi maravilhoso ver o filme ser assistido e aplaudido por mais de 800 pessoas de outra cultura (o povo do Irã).








EMERSON LINKS

Em “Corpo Devasso” (1980), você teve David Cardoso no elenco e Ody Fraga no roteiro. O que te atraiu realizar este projeto?

ALFREDO STERNHEIM

Eu que ofereci o projeto para o David, escrevi pensando nele para o papel principal. Me atraiu passar por um tema pouco explorado por nosso cinema: o do jovem que sai do ambiente rural e vai para a cidade grande onde também se prostitui.

EMERSON LINKS

Em “Violência na Carne” (1981), você contou com a forte presença “física” de Helena Ramos, atriz que tinha um dos corpos mais sensuais da época, no circuito de cinema que atuava. Você tinha consciência de que esse recurso de usar o erotismo ajudava a vender a obra audiovisual?

ALFREDO STERNHEIM

Tinha.

EMERSON LINKS

Qual foram os ingredientes dos seus filmes responsáveis por sua popularidade como cineasta? Foram as atrizes em destaque, o roteiro ou o contexto oferecido como alternativa de entretenimento momentâneo?

ALFREDO STERNHEIM

Acho que, de tudo um pouco.

EMERSON LINKS

Reza a lenda que muitas atrizes de sucesso ou mesmo fenômenos fugazes foram lançadas por você como diretor. Você se sentiu gratificado nesse sentido? Exemplos: Vera Fischer, Sandra Brea, Rossana Ghessa, Helena Ramos, etc. 

ALFREDO STERNHEIM

É um exagero, ou uma lenda. Todas elas (as citadas) já eram atrizes consagradas quando as dirigi. Mas foi um prazer, uma alegria poder dirigi-las.

EMERSON LINKS

Você escreveu uma autobiografia, “Um Destino Insólito”. Fale sobre esse trabalho.

ALFREDO STERNHEIM

Acho que o livro fala por si.   

EMERSON LINKS

Você já pensou em se associar a outros talentos, produzindo histórias / projetos promissores ou pretende parar por aí?

ALFREDO STERNHEIM

Já pensei, aliás penso e me ofereço. Espero que role. Espero que não me deixem parado.

EMERSON LINKS

Foi uma surpresa para parte do público saber que no resto do país, conforme aponta a última matéria do blog sobre várias produções independentes que não recorreram a Lei Rouanet e editais?

ALFREDO STERNHEIM

Foi uma surpresa. E um ato de coragem que, espero, se amplie. A Lei Rouanet tem seus méritos, mas está tendo um uso muito distorcido. Com muitos casos de orçamentos altos e irreais, incompatíveis com as respostas médias do mercado, , está inflacionando os custos. Essa situação precisa mudar. O Cinema da Boca era muito mais racional nos custos.

EMERSON LINKS

Você pretende assistir essas produções independentes citadas no blog A BÍBLIA DO CINEMA, como é o caso do longa O DIÁRIO DE UM EXORCISTA, de Renato Siqueira, que assim como você é diretor e roteirista simultaneamente? Ou como Evandro Berlesi, do Rio Grande do Sul, que criou o grupo de cinema independente Alvoroço? Ou mesmo Dimas Oliveira Junior com o grupo Oficina Rosina Pagan, em São Paulo, que realiza filmes fora do circuito? (Tenho observado ao entrevistar todos os diretores aqui que não há união, quando deveria haver, não há intercâmbio quando o certo seria isso, vide reportagens anteriores do meu blog). Obs. O próprio entrevistador é cineasta e está tocando projetos como o já mencionado A BÍBLIA DO CINEMA, BÍBLIA DO ROCK e O AMOR NOS TEMPOS DA INTERNET. Todos estes livros e longas-metragens registrados no EDA e estão em curso. Enfim, você pretende assistir os citados, para se atualizar a nova realidade e passar um pouco da sua experiência através de parcerias de diferentes gerações?




ALFREDO STERNHEIM

Pretendo. Quero ter essa oportunidade. Quero passar a minha experiência e receber a dos novos. Nesse sentido, um dos trabalhos mais gratificantes que fiz foi participar do projeto da série "Magnifica Setenta", sob a liderança do cineasta Claudio Torres, ao lado de roteiristas mais jovens. Foi maravilhoso.

EMERSON LINKS

Você acredita que esse movimento possa se tornar forte a ponto de influenciar as grandes produtoras a investir nos novos talentos?

ALFREDO STERNHEIM

Acredito.

EMERSON LINKS

Fale um pouco de seu trabalho do dia a dia, como sobrevive no mercado e planos para o futuro.

ALFREDO STERNHEIM

A sobrevivência está difícil.  Mas escrevo textos de crítica, dou palestras sobe vários fases da História do Cinema  e sobre o cinema brasileiro. E aceito encomendas de roteiros.

EMERSON LINKS

Quais são suas influências como diretor?

ALFREDO STERNHEIM

Citei acima os diretores que admiro, mas não sei se tenho influência deles.

EMERSON LINKS

Cite um ou mais injustiçados do cinema brasileiro.

ALFREDO STERNHEIM

Jean Garrett, J.B. Tanko, Fauzi Mansur,  Afranio Vital, José Medina, eu... José Carlos Burle, Salce...

EMERSON LINKS

Que conselho você daria a um profissional que esteja, agora, iniciando um projeto de cinema, hoje, baseando-se na sua experiência e exemplo como profissional da classe?

ALFREDO STERNHEIM

Não sei. Os tempos são outros, a forma de produção mudou.

EMERSON LINKS

Muito obrigado então.



(FIM DA ENTREVISTA)


Para saber mais sobre o cineasta, assista no you tube:







segunda-feira, 14 de maio de 2018

terça-feira, 8 de maio de 2018

BARÃO DE ITARARÉ, ENÉAS CARNEIRO E OUTROS PERSONAGENS DO UNDERGROUND QUE MORRERAM SEM GANHAR UM BOM FILME

Texto: Emerson Links.






  De tempos em tempos, a história do Brasil revela personagens pitorescos que, por negligência cultural de uma elite cultural (anacrônica) preocupada apenas em reaproveitar os ecos do cinema novo, deixa de resgatar as mais belas histórias. "Belas histórias" no sentido folclórico da palavra, eu diria. São muitos personagens que viveram nosso panorama, a começar pelo mais notório, o Barão de Itararé, sequer ganharam um esboço de realizadores vistos como "mentes abertas", mas que, na primeira oportunidade, investem na mesmice das comedias ligeiras e de conteúdo superficial (recuso-me a citar nomes e é só consultar o google que vocês irão encontrar os cineastas que caem em contradição quando se comprometem com um determinado estilo de filme). Justamente, agora que vivemos um momento de cinebiografias de personalidades tais como Tim Maia, Elis Regina, Paulo Coelho e a inedita Roberto Carlos, observo que a porta continua fechada para a diversidade. Quando falo em diversidade não centralizo o questionamento apenas na sexualidade das personagens a serem abordadas, centralizo a tendência que os formadores de opinião têm de considerar relevante apenas o mainstream e não o underground. Ocasionalmente a realidade das histórias já apresentadas pelos pós-moderninhos retrata apenas um circulo vicioso retrógrado instaurado em todo o país.

Tim Maia, que chegou a figurar na jovem guarda, era imensamente underground, antes de fazer sucesso na MPB na década de 1970.



  Raras iniciativas pularam a cerca da "ousadia" mas tudo, como de costume, ficou unicamente no campo da ficção, como é o caso de uma série de desenho animado brasileira chamada "Os Under-Undergrounds", produzida pela Tortuga Studios e exibida pelo canal Nickelodeon. Além da trama toda estacionar na ficção e batizar uma personagem com nome histórico, Heitor Villa Lobos (no caso, aqui, um guitarrista), nenhum envolvido rompe a barreira do ineditismo. Mutantes? Você já viu isso antes, não? Só que em outra embalagem, certo? Apesar do título, trata-se de uma série e não de um filme de cinema, que de "underground" só tem o nome. Não estou querendo puxar brasa para o meu assado, mas minha peça de teatro inedita, "Memórias da Turma do Parquão", é mais underground que essa série, isso sem falar que trato de personagens verídicos e que realmente estiveram à margem do sistema envolvendo-se nos movimentos (beatnik e hippie) que transformaram a história da sociedade.

O professor Valter Waichel e Antonio Martins Neto, duas crias do movimento hippie brasileiro ignoradas pela mídia. ("Memórias da Turma do Parquão"). Udigrudi e folclóre a toda prova.

O escritor "maldito" Humberto Machado, que participou dos movimentos beat generation e hippie, dos anos 1960. Outra personagem emblemática da Turma do Parquão.




 (...) E depois deste meu comentário pretensioso, pergunto eu: "Qual foi a última cinebiografia de personagem do underground brasileiro que você assistiu?" Se a resposta for "O Bandido da Luz Vermelha", você, leitor será obrigado a concordar comigo que estamos órfãos de personagens verídicos, que não tenham sido celebridades da mídia, desde 1969. E isso não poderia mudar?  Certamente que sim! - como sempre digo. A realização de cinebiografias de personalidades à margem do sistema isso, sim, seria algo bem underground. E, foi assim, que eu abri a discussão no primeiro parágrafo deste texto, criticando a mesmice generalizada da classe cinematográfica brasileira. Como só me resta, aqui, o direito de sugerir, retomo ao primeiro personagem underground citado que daria um bom filme, o irreverente Barão de Itararé, codinome de Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, também conhecido por Aporelly, jornalista, escritor e pioneiro no humorismo político brasileiro. O falso título de nobreza ("barão") era uma investida criada por ele mesmo. Nascido no Rio Grande do Sul em 29 de janeiro de 1895, tornou-se célebre por suas frases de efeito que, em sua essência, criticavam em alto bom humor as contradições dos seres humanos do seu tempo. Esse ingrediente por si só já renderia uma comedia altamente pitoresca. Infelizmente, a elite cultural cinematográfica não se interessa por projetos de vanguarda, prefere seguir décadas a fio, filmando, de um modo geral, apenas histórias policiais ambientadas em favelas dominadas pelo tráfico ou (ainda) comedias descartáveis sobre casais em crise (no caso, Globo Filmes e seus "puxadinhos"). E essa mesma elite que critica o capitalismo e coloca o socialismo como porta de saída para a crise social sonha ganhar um Oscar e enriquecer realizando filmes em um país taxado de "consumista". Se o Barão de Itararé estivesse vivo não deixaria passar em branco essa contradição da nossa nobre "elite cultural".



  Pois então... Voltando a bater na mesma tecla, vejo que uma das saídas para a crise de criatividade  seria mesmo explorar biografias de personagens historicamente relevantes, porém, nunca adicionados numa lista de dez nomes do hit parade sistemático. Após sugerir um filme sobre o Barão de Itararé, seguindo uma ordem cronológica, gostaria de lembrar aos pesquisadores que nossa história musical no rádio é muito rica. A era de ouro do rádio - inicialmente anos 1930 - permite ser imensamente explorada e não apenas em razão da qualidade de seus protagonistas e sim dos seus coadjuvantes. Na primeira década do século XXI, através de uma iniciativa ímpar, resolveram rodar longas-metragens sobre o compositor Noel Rosa, porém, o mais underground do circuito, o paradoxal Madame Satã, ganhou projeção em uma obra audio visual em tom de poesia suburbana. Personagem marcante na Lapa dos anos 1930, Madame Satã, codinome de João Francisco dos Santos, foi o primeiro drag queen a ganhar notoriedade na vida noturna carioca onde a malandragem não era sinônimo de trapacear o cidadão comum e sim de celebrar a existência nas mais variadas manifestações artísticas, entre as quais, o samba. O ator Lazaro Ramos deu vida ao pouco historicamente comentado Madame Satã. O filme não foi nem um fenômeno de bilheteria, certamente por problema de distribuição nas salas de cinema, onde o Brasil enfrenta concorrência desleal e uma janela destinada apenas aos blockbusters americanos. Por outro lado, no próprio underground vigente, encontramos o cineasta Dimas Oliveira Junior, através da escola Oficina Rosina Pagan investindo em curtas-metragens sobre grandes personagens de nossa música popular clássica dos anos 1930 a 1950. O paradoxo é que, em tal iniciativa, Dimas (nacionalmente ainda um realizador underground), retrata apenas celebridades de ouro do mainstream radiofônico. Isso não reduz seu brilho, muito pelo contrário, mas enriqueceria a galeria se procurasse explorar os coadjuvantes menos comentados da história. Na maioria das vezes são esses coadjuvantes que trazem as melhores histórias de bastidores. Além de o próprio público (povão) se interessar isso seria um ganho solidamente cultural. Penso na minha sugestão, então... Que tal contar a história de algum radialista engolido pelas grandes corporações? Na minha visão, dentro do terreno das sugestões, isso, sim, seria retratar o underground do período de ouro da era do rádio.

Produções da Oficina Rosina Pagan resgatam velhos ícones do mainstream, mas em ritmo de divulgação underground.


  Entrando no mundo do rock (só para diversificar) existe uma galeria imensa que poderia ser bem explorada. Até agora, o cinema brasileiro retratou apenas os mais famosos, como por exemplo, Cazuza (no longa "O Tempo Não Para"), Renato Russo ("Somos Tão Jovens"), Tim Maia e Erasmo Carlos ("Minha Fama de Mau"). Como seria, neste caso, o cinema retratar os personagens do underground? Vamos começar com uma cinebiografia sobre o marginalizado Serguei. Não falo de pseudo-documentários e sim de um filme com atores genuínos, roteiro denso, marcações de cenas consistentes e tudo isso sem apelar para a habitual chapa branca ou erros históricos de datas (jamais checados pelos produtores aventureiros que sempre atropelam a iniciativa de outros mais preparados). Conheço, pelo menos, dois, que saberiam contar uma bela história. E outros que adorariam falar de bandas que tiveram presença em seu tempo, mas não frequentaram as paradas como Loupha ou Watt 69. O mesmo pode valer para quem fez sucesso ao lado de Roberto Carlos na jovem guarda, como a quase underground The Youngsters e ainda, de quebra, Os Canibais, outro grupo emergente na época. Entretanto, nos anos 1970, Walter Franco, Jards Macalé, Edy Star e Cornélius não renderiam grandes cinebiografias? A banda Made in Brazil, por exemplo, só virou documentário "independente", mas segue fora de exibição no grande circuito e jamais algum diretor pensou em realizar um filme com atores de verdade. Ainda poderíamos ter alguma obra sobre O Terço, Casa das Máquinas ou mesmo a lendária Bixo da Seda. Observo que um coadjuvante deste mesmo tempo, Ezequiel Neves, também seria outra possibilidade. Dos anos 1980, ainda teríamos Thomas Pappon, da banda Fellini e os compositores e músicos gaúchos Júlio Reny e Egisto Dal Santo. Questão de profunda análise, mas vai do gosto musical de cada realizador que seja iluminado e influenciado por cada possível biografia. O universo underground é rico. Qualquer nome pode render novos links. Eu próprio luto com dificuldade para finalizar a "Bíblia do Rock" e declaro que, muitas vezes, os menos famosos (e mais pitorescos) são os mais difíceis de entrevistar / biografar. Muitas vezes, eles próprios criam barreiras sem darem por conta. Daí, não adianta culpar a grande mídia se, por uma postura anti-estabilishment em momento inadequado, falo na terceira pessoa que "você afugentou a grande chance de ser redescoberto pelo público". Enfim, acabam prejudicando a si próprios.


Serguei, o underground roqueiro já era habitado na década de 1960.



O genial Walter Franco, grande compositor da MPB anos 1970, com quem convivi no final da década de 1990. Daria um filme, no mínimo, instigante.

Cazuza, roqueiro do mainstream virou filme, mas, seu amigo Ezequiel Neves, egresso do rock underground brasileiro poderia ir mais além.



  Num país que o próprio paradoxo se torna o paradoxo de si mesmo, penso ainda em sugerir, sem remuneração, outros nomes pitorescos que resultariam em grandes filmes. Na política, nenhum outro filme seria mais engraçado que retratar Éneas Carneiro, do PRONA. Dotado de uma fluência verbal sem igual e propostas bizarras, médico cardiologista e matemático, ele entrou para a história como o deputado federal mais votado do seu tempo. Nascido em 5 de novembro de 1938, em Rio Branco, no Estado do Acre, emergiu durante o período das eleições de 1989, quando tinha poucos segundos no horário político para apresentar suas propostas ("Meu nome é Enéas") e, por incrível que pareça, era o mais lúcido de todos. Dentro de um oceano de candidatos, sua capacidade intelectual e pragmatismo em curto espaço de tempo impressionava, mas o tom cômico, muitas vezes confundia os eleitores que achavam se tratar de uma brincadeira e não candidatura a Presidência da República. Enéas Ferreira Carneiro morreu em 6 de maio de 2007 e, em tempos infrutíferos na política brasileira, renderia, sim, um filme reflexivo. Infelizmente, a elite cultural brasileira, até então, se preocupou apenas em realizar um longa-metragem sobre a figura (hoje discutível) do ex-presidente Lula.

Enéas Carneiro, no auge da fama. Político anti-politicagem que daria um bom filme.


  Encerrando, as sugestões de personalidades do underground, ingresso, agora, em território nativo. Existem tantos talentos esquecidos pela imprensa brasileira (pra não repetir "mídia") que qualquer ator, atriz ou cineasta clássico pode virar personagem da atual cena artística. Em especial, no cinema, segue a lista de personas que, sob minha óptica, eu levaria cem anos para retratar: Carmen Santos (atriz e cineasta, uma das primeiras a produzir filmes no Brasil), Ankito (não era underground e fez muito sucesso na década de 1950, porém "esquecido"), Anselmo Duarte (o primeiro galã cineasta a entrar para a história que a nova geração desconhece), Franco Zampari (diretor de cinema da Vera Cruz), Odete Lara (atriz clássica), Alberto Ruschel (ator clássico), Otello Zeloni (comediante do cinema dos anos 1960), Darlene Gloria (atriz que ganhou fama nacional, mas que sumiu dos holofotes durante a juventude), David Cardoso (se você assistiu "Boogie Nights" vão entender porque inclui o nome dele numa possível biografia), Dilma Lóes (atriz e cineasta de "Quando as Mulheres Paqueram"), Fernanda de Jesus (uma beldade dos anos 1970 que mergulhou nas profundezas do underground). E, na posição de pesquisador, escritor e cineasta, não posso esquecer de Braz Chediak (e por que não?). Assim como o Carlo Mossy, ele teria várias histórias de bastidores que poderiam virar filmes dramatizados. Se sair daqui algo, lembrem-se de mim nos créditos finais. (Risos).

Anselmo Duarte - Começou de baixo, durante os anos dourados.


Ankito, o comediante com cara underground, era mais que um Oscarito alternativo.


Otello Zeloni, símbolo da comédia popular que a mídia esqueceu.


O cineasta clássico, Bráz Chediak, em Três Corações.

Dilma Lóes, atriz e cineasta, que sobreviveu a cultura machista dos anos de chumbo.

Fernanda de Jesus, uma das musas do cinema da década de 1970. A beldade pop que o underground engoliu, prepara autobiografia a ser lançada em breve.

David Cardoso, então udigrudi e bélico. Outra cinebiografia que poderia "acontecer".
    

Plato Divorak, o compositor e músico gaúcho, dos anos 1990, herdeiro da corrente psicodélica da década de 1960, emerge como personagem bastante comentada no underground roqueiro nacional. Mais um interessante longa poderia sair de alguma cartola.


  Ok. Algumas escolhas minhas, aqui, são baseadas em pesquisas de campo e não meramente no meu gosto pessoal (com raras exceções. obviamente, sou elético). Mas... Observem o seguinte: lembrar (ou sugerir) nunca é demais. Estou falando de filme dramáticos e não documentários imediatistas que, por bem ou mal, qualquer um pode fazer. Em tempos que somente as grandes celebridades ganham filmes nas telas dos cinemas brasileiros, como Bruna Surfistinha e congeneres. Não seria nada mal as grandes produtoras de cinema abrirem as portas para os novos talentos que vejo emergir das escolas. Garanto que estão perdendo tempo em não contratar tantos profissionais com, pelo menos, cem vezes mais preparo que aqueles que são contratados apenas por "amizade", nepotismo, etc. Não é à toa que o cinema americano continua popular, mesmo sofrendo de crise de criatividade, também (mais em grau menor), visto que filmes sobre super heróis mitológicos de revistas em quadrinhos ("Capitão América" e outros) são mais redentores que filmes brasileiros sobre traficantes (vide o longa-metragem "Alemão", "Meu Nome Não é Johnny", entre outros). Ah! Claro! Alguém pode alegar que filmes brasileiros sobre traficantes são recheados de crítica social, mas, será que uma película que retrate um herói egresso da sociedade civil não poderia virar um instrumento mais aprimorado de reflexão?


Edy Star, músico baiano revelado por Raul Seixas, o underground dos "underground". Renderia uma cinebiografia musical? 





  A esperança é a última que morre. Pode demorar séculos, mas ainda sonho viajar numa máquina do tempo e ver como tudo fica. E... aí vai a pergunta que não quer calar: "Quando os realizadores brasileiros terão uma visão de Primeiro Mundo?"








   
   

domingo, 6 de maio de 2018

STAR WARS - SOBRE A ATUAL DISCUSSÃO DA SAGA








  Resolvi me manifestar sobre o assunto, após flagrar tantos comentários infelizes sobre os rumos da série de longas-metragens. Pois bem... Como fã da saga, eu não podia ficar indiferente aos fatos. Pois bem... Acho pura ignorância tecer críticas gratuitas e sem embasamento, quando tais internautas partem para o extremismo. Mas... vamos lá. Desde a entrevista publicada na revista Cinemin, em 1983, o mestre George Lucas declarou que já planejava contar a pré-história das personagens filmando, assim, os episódios I, II e III. Então, o cineasta aguardou anos para que os efeitos especiais evoluíssem para tal missão. Portanto, quando alguém critica a realização destes filmes parece não lembrar desta questão. Imagine se George Lucas não tivesse completado a saga e deixasse apenas os episódios IV, V e VI. De qualquer jeito, os iconoclastas de plantão iam esculhambar o diretor e dizer que ele ficou em divida para com o público que o acolheu no passado. Enfim... Das plateias das arenas romanas até aqui nada mudou. Em tempo - sobre a nova geração e os filmes derivados de "Star Wars": Emilia Clarke (do longa "Han Solo") não é atriz da Disney como o mimis acusaram, pois ela fez carreira na série "Game of Thrones", Felicity Jones ("Rogue One") é uma atriz respeitada pela crítica. Diego Luna, ator latino americano também é diretor (nem tão novo assim) é prova da diversidade étnica atuante. Se existe unanimidade ela recai no protagonista Alden Ehrenreich (Han Solo), ator descoberto por Warren Beatty (em outro longa sobre Howard Hugues). Muitos questionam o talento deste ator, enfim...

Um dos melhores lançamentos da saga derivada, questionada por fãs conservadores.

O longa sobre o jovem Han Solo.

A linda e boa atriz Emilia Clarke.

Star Wars VIII - O Último Jedi.



  Quanto aos jovens da saga oficial, a discussão atual me faz lembrar quando meu pai falava a mesma coisa de Mark Hamill quando este foi lançado décadas atrás, ou seja, sempre o preconceito assume seu espaço em cada época. Obvio que os filmes novos são favorecidos pela tecnologia que, em contrapartida sempre ofusca o que de melhor a história possa apresentar, porém, são sinais dos tempos. Se os velhos mimados (leia-se adolescentes de outrora) estão insatisfeitos com os resultados de STAR WARS, simplesmente não assistam e procurem os super-heróis da Marvel ou da DC Comics para suprirem suas carências afetivas. E não sejam egoístas, caso sejam "solteirões", adotem uma criança e levem ao cinema.




(EMERSON LINKS).

sábado, 28 de abril de 2018

AGILDO RIBEIRO DESCANSA EM PAZ

Carreira do grande humorista foi marcada graças a ascensão da TV nas décadas de 1970 e 1980, porém, muito antes ele deixou sua marca em grandes atuações no cinema.






OBS. Matéria sendo escrita em tempo real.

sábado, 14 de abril de 2018

MORTE DE MILOS FORMAN É UM TRISTE SINAL DA ÚLTIMA GERAÇÃO DOS GRANDES MESTRE DO CINEMA


                                          Milos Forman dirigiu os maiores filmes dos anos 1970 e 1980.





REPORTAGEM ESCRITA EM TEMPO REAL. EM BREVE SERÁ POSTADA AQUI.

domingo, 4 de março de 2018

TÔNIA CARRERO, UMA DAS ÚLTIMAS ATRIZES PIONEIRAS DO CINEMA DO SÉCULO XX, DESCANSA EM PAZ






Texto: Emerson Links.



Ela adaptou o padrão de atuação universal hollywoodiano em produções de cinema da Vera Cruz. Em contrapartida revigorou a estética do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), onde não era comum abrigar mulheres autenticamente bonitas (que empreendiam a arte de representar), e com o passar dos anos se tornou figura marcante nas produções dos anos de ouro da Rede Globo (iniciando em "Pigmalião 70" porém alcançando o auge da popularidade com o lançamento de "Água Viva", folhetim de Gilberto Braga). O afastamento gradual dos holofotes, ajudou a construir o mito que o público seleto amou cultuar através das memórias das mídias eletrônicas (anos 1990) e virtuais (século XXI). Com vocês, uma breve análise da carreira de uma artista brasileira sem igual.





  Antes de qualquer menção equivocada brindada pelos jornalistas da nova geração que só assistem novelas, eu gostaria de cutucar a todos informando que a bela atriz, quando jovem, ainda não trabalhava com teledramaturgia, portanto, não era "apenas" um ícone da televisão brasileira conforme foi decretado pelo G1. Tonia Carrero representou simplesmente a nova safra de estrelas do nosso cinema, que nos anos 1950, resumia-se a comédias despretensiosas para as massas, invariavelmente produzidas pelas "companhias" Vera Cruz, Atlântida, Herbert Richers e Mazzaropi Produções (era assim que chamavam aquilo que, hoje, conhecemos como "produtoras"). Sim, representou, porque, antes dela (Tônia) chegar a protagonizar os filmes dramáticos que começaram a ser realizados na década de 1950, havia, entre outras ilustres, a grande dama do teatro, Cacilda Becker, que participou de "Floradas na Serra", e também, Eliane Lage, que se transformou em um mito após sua curta carreira em filmes como "Caiçara" (1950), "Angela" (1951), "Terra é Sempre Terra" (1951), "Apassionata" (1952), este último, por sinal, estrelado por Tônia Carrero, em grande estilo. Porém, Eliane Lage fazia o tipo cabocla, Fada Santoro (de "Areias Ardentes", 1952) exercitava a imagem de boa moça em busca da versatilidade, Heloísa Helena (de "Terra Violenta", 1948) era a urbana do cotidiano, Eva Wilma, a heroína preterida ("Uma Pulga na Balança", 1953, e seriado "Alô Doçura"), Eliana Macedo ("Carnaval no Fogo", 1949) lembrava sempre aquela moça prendada conferindo a fila de pretendentes (mesmo em 1958, em "Alegria de Viver", filme que comemorava os primeiros passos de dança do rock and roll brasileiro, ela se manteve a jovem que toda família queria ter em casa como nora). Enfim, o ingresso de Tônia Carrero no cinema brasileiro revestiria as telas de um glamour dificilmente encontrado em estreantes de plantão. Haja vista que até cantoras maravilhosas como Angela Maria, Emilinha Borba, Inezita Barroso, Adelaide Chiozzo e Doris Monteiro, que estavam em alta no rádio, tinham boa receptividade nas chanchadas brasileiras (as três últimas citadas tinham papéis definidos em cada filme). O cinema brasileiro, assim como no resto do mundo, também, necessitava ter seu cast de belas atrizes que tratassem com dignidade a arte de representar. E não era uma reivindicação fácil de ser atendida, haja vista que vedetes em evidência como Dercy Gonçalves, Sonia Mamede e Anilza Leoni inclinavam-se para as comédias e as atrizes de talento (porém meramente simpáticas) como Renata Fronzi, Eva Todor e Célia Biar ficavam em outras posições de destaque sem nunca alcançar o status de estrela principal. Barreira essa que seria rompida depois com o surgimento de beldades como Odete Lara, Ilka Soares, Norma Blum, Elizabeth Gasper, Theresa Amayo, Maria Dilnah, Norma Benguell (isso já em meados dos anos 1950 em diante). Todas estas marcaram toda uma geração. Não importando medir a dimensão de beleza, interpretação dramática ou glamour casual, pode-se dizer que Tônia Carrero foi o big-bang da modernização de todo um sistema de broadcasting.



  A jovem Maria Antonietta de Farias Portocarrero, que nasceu a 23 de agosto de 1922, no Rio de Janeiro, e foi criada na zona sul da capital carioca. Era descendente do marechal Hermenegildo de Albuquerque Porto Carrero (barão de Forte de Coimbra), e que, apesar de ser graduada em educação física, optou pela arte dramática indo estudar teatro em Paris. Entretanto, antes de frequentar qualquer curso de especialização, recebeu o convite para atuar no filme "Querida Susana" (1947), de Alberto Pieralise, com os jovens Anselmo Duarte e Nicette Bruno. No início, o que chamava a atenção era a sua beleza aristocrática, eventualmente poderia interpretar o que quisesse, considerando que seu rosto marcadamente europeu afastava-a das personagens varzeanas. Charme, elegância e cordialidade caracterizavam a atriz em sua primeira fase. O carisma, sem dúvida, foi o que garantiu seu passaporte para o teatro. Foi nessa escola que Tônia Carrero aprendeu o que lhe garantiu sustentação por toda uma carreira, ou seja, a construção de uma personagem aproveitando elementos sólidos da própria personalidade. Exemplos: Rita Hayworth, Gene Tierney, Lana Turner, Donna Reed, Dorothy McGuire e Elizabeth Taylor (nem sempre num único tom interpretativo, vide sua carreira nos anos 1960 e demais épocas). Todas estas, assim como Tônia, começaram a colher frutos a partir da década de 1940. A diferença é que a base principal de nossa estrela foi sua iniciação no teatro. Melhor que isso, podia contar com seus colegas de profissão que pertenciam ao mais alto escalão das artes cênicas. Paulo Autran, que se tornaria o Laurence Olivier brasileiro (considerado o ator mais completo do século XX), seria peça fundamental na ascensão de Tonia Carrero como atriz. Ao lado dele, a bela estreou na peça "Um Deus Dormiu Lá em Casa", de autoria de Guilherme Figueiredo, sob direção de Silveira Sampaio. A boa repercussão do espetáculo rendeu-lhe o prêmio de atriz revelação pela Associação dos Críticos Cariocas em 1949. Ela não era mais um rostinho bonito. Vale dizer que, nesse meio tempo, o cinema ainda pedia passagem para Tonia e com isso, obteve presença marcante em outros dois filmes da época, "Caminhos do Sul" (1949) e "Perdida pela Paixão" (1950).
  Até então, a atriz era casada com Carlos Arthur Thiré, mas logo acabaria se envolvendo afetivamente com o diretor italiano Adolfo Celi e essa união resultaria em casamento em 1951 e, consequentemente, num contrato assinado com a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. A convite do empresário Franco Zampari, sob os olhares vigilantes de Celi, a moça foi estrela dos principais filmes produzidos neste período. Ei-los: "Apassionata" (1952), "Tico-Tico no Fubá" (1952) e "É Proibido Beijar" (1954). Um ano antes, Tonia Carrero já fazia parte do lendário TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), onde atuou até 1955, quando decidiu fundar, com Paulo Autran e Adolfo Celi, a Companhia de Teatro Celi-Tônia-Autran (CTCA). Essa companhia pavimentou o grande circuito do teatro brasileiro que reverenciou os grandes autores clássicos universais como William Shakespeare e filosóficos como Jean-Paul Sartre.

Tônia ao lado do ator clássico, Paulo Autran.

Em "Tico-Tico no Fubá", contracenando com Anselmo Duarte.


  Em 1962, ainda participaria do filme "Esse Rio que Eu Amo", de Carlos Hugo Christensen, com roteiro de Millôr Fernandes, mas acabaria sendo seduzido por trabalhar na TV, porém continuaria firme no teatro mesmo após se separar de Adolfo Celi. Dois anos depois casou com César Thedim, engenheiro e produtor cinematográfico, responsável por filmes como "Deuses e Os Mortos" e "Azyllo Muito Louco" (ambos de 1970) e "Como Era Gostoso o Meu Francês" (1971). Sobre este seu terceiro marido ela teceria o seguinte comentário a Revista Época em 2009: "Ele era muito divertido, maravilhoso, não como companheiro. Melhor dos amigos e pior dos maridos" - definiu a atriz fazendo um balanço geral de sua vida conjugal. Suas memórias passaram a integrar um livro da Coleção Aplauso, "Movida pela Paixão". É de conhecimento público que muitos escritores e artistas em geral eram apaixonados por ela. Nem Paulo Autran em início de carreira escapou desta lista. Em defesa da atriz, ele já fez o que havia de mais ousado, ou seja, cuspir na cara de um crítico. O saudoso Paulo Francis levou a pior em um episódio especifico quando teceu comentários negativos sobre o trabalho de Tônia. Quer mais paixão que isso? E Paulo Autran, por mais que fosse questionado, uma vez que permanecesse vivo frente a Geração Internet, por sua atitude indelicada, ainda teria cacife por ser o maior ator da história do teatro brasileiro do século XX.

          Nicete Bruno, Paulo Autran e Tônia. Crédito fotográfico: Antonio Aguillar. 

Tônia Carrero e Ziembinski.


  A memória da artista bem que merecia um filme, considerando uma época onde a efervescência de cinebiografias favorece a nossa memória cultural, por muitas décadas relegada a um segundo ou um terceiro plano, agora emerge através de iniciativas iluminadas. Nas décadas anteriores cinebiografias eram lançadas de forma muito espaçada e poucas contavam histórias de atrizes, como nas década anteriores, que tivemos o longa-metragem sobre o cineasta Eduardo Abelin, "Sonho sem Fim" (1986), dirigido por Lauro Escorel, e, principalmente, "Leila Diniz" (1987), de Luiz Carlos Lacerda, sobre a saudosa atriz que estremeceu as estruturas do meio artístico dos anos 1960 e que morreu precocemente em um acidente aéreo em 1972.  É certo que no período de escassas produções que retratavam a vida de artistas brasileiros, Tônia Carrero estrelou três produções, tais como "Sonhos de Menina Moça" (1987), "A Bela Palomera" e "Fogo e Paixão" (ambos de 1988). Os convites para o cinema foram diminuindo restando apenas "O Gato de Botas Extra-terrestre" (1990) e sua última e derradeira aparição no drama "Chega de Saudade" (2008). Observa-se que sua atuação na TV era mais constante possivelmente por causa do retorno financeiro e pelo fato de estar cercada de maiores regalias que dificilmente ocorrem na Sétima Arte brasileira. Tonia era uma atriz que, apesar da influência libertadora do teatro, cresceu sob influência estética das grandes estrelas de Hollywood (fato que a Vera Cruz não deixa mentir), nem as maquiagens ou os vestidos da época.
  É perfeitamente aceitável que o corpo físico de 95 anos de Tonia Carrero tenha nos deixado em 3 de março de 2018, na Cliníca São Vicente, na Gávea, na Zona sul do Rio de Janeiro, porém, conforme a ocorre em esferas universais, nasceu um novo mito que a partir de então poderá ser cultuado por todos os amantes da cultura artística em geral. A vida continua. Para quem ainda não sabe, Tonia Carrero é mãe do também renomado ator Cecil Thiré (das clássicas novelas "Escalada" e "Roda de Fogo"). Ela, por assim dizer, impulsionou uma dinastia de artistas que se manterá viva por muito tempo, através dos netos e bisnetos. Todos estes, no caso dos netos (Miguel Thiré, Luisa Thiré e Carlos Thiré) também se revelaram atores competentes em diferentes graus de percepção e com determinadas variações, de acordo com o avaliador ("crítico") em questão. Ainda tem Vítor Thire, filho de Luísa e, consequentemente, neto de Cecil e bisneto de Tônia.

Cecil Thiré ainda criança com a mãe Tônia Carrero.


Da esquerda para a direita: Cecil Thiré, Tonia Carrero e Miguel Thiré.

Tônia Carrero e seu único filho, o diretor e ator Cecil Thiré.


  Como se vê, muitas vezes, o amor à arte sublima toda e qualquer acusação de nepotismo. O mais importante antes de ingressarmos em novas polêmicas é exercitarmos a memória cultural de uma nação tão sucateada por políticos corruptos e empresários inescrupulosos. Seria melhor que, de vez enquando, pelo menos, o povo, ao invés de perder tempo nas redes sociais discutindo a candidatura de algum "macunaíma" a Presidência da República pudesse colocar em sua agenda um pouco de entretenimento sadio. Na arte também se faz política, dependendo do caso. Mas, num breve momento cultural saudosista, mesmo sem eu ter vivido as décadas de ouro do cinema, fico com um sentimento de vazio com a morte de Tônia Carrero. O Brasil podia ser mais alienado no passado, porém, sinto, através dos relatos do artistas clássicos que entrevisto, que era certamente um país mais divertido que hoje. Por uma arte com mais aplausos e menos vaias gratuitas, revigoro minhas convicções. (...) E as pedras continuarão rolando... e os palcos e os holofotes idem. Graças a Deus!!!








Para saber mais sobre Tonia Carrero, assista no you tube:




Tonia Carrero entrevistada por Bruna Lombardi.




                                            Tonia Carrero - Notícias ao Minutos Brasil.


Eva Wilma fala sobre a morte de Tônia Carrero.


Tônia Carrero no Programa Cultura Retrô.


Recordar é Viver resgata entrevista de Tonia Carrero.


Video Show, Rede Globo. Entrevista com Tônia Carrero sobre lançamento de sua biografia.

Lançamento da biografia da atriz no Rio de Janeiro. "Movida pela Paixão", Coleção Aplauso.


Aniversário de 90 anos de Tonia Carrero.