terça-feira, 30 de outubro de 2018

CARLOS DUCATTI, O HOMEM QUE VEIO DO PLANETA ORION

A obra em questão foi um antidocumentário lançado no underground cinematográfico e que apresentou um cientista que era folcloricamente conhecido pela imprensa gaúcha como "um extraterrestre exilado no planeta Terra". Filósofo, engenheiro, poeta, inventor, paranormal, entre outras coisas, Ducatti fundou o Clube Nova Era, que atraiu associados de peso como Raul Seixas e Jorge Mautner, recebeu uma carta da Nasa e realizou palestras antológicas, mas, sobretudo, popularizou-se como figura pitoresca de Porto Alegre, constando em livros escrito por admiradores e almanaques de humor de circulação no udigrudi brasileiro.


Cena do filme "Carlos Ducatti, o Homem que Veio do Planeta Orion", de Emerson Links que, na época, assinava sob o pseudônimo de Ahmargon D'Arak.




QUANDO UMA EXISTÊNCIA ALTERNATIVA SUPERA A REALIDADE  

Matéria escrita por Emerson Links.

"Eu era muito jovem, tão jovem que não gosto de lembrar. Eu ainda era praticamente uma criança, menor de idade, porém, caí na estrada muito cedo (estilo on the road) e tive a sorte de ser aceito num grupo de intelectuais e contestadores das décadas de 1960 e 1970, batizado de Turma do Parquão (leia-se Turma do Parcão). Se fosse adulto naquela época, hoje eu estaria muito velho, porém, não de um pré-adolescente que estudava teatro, quando conheci essa personagem bizarra e que dizia ter vindo de outro planeta", disse isso em alguma entrevista de algum jornal da cidade há mais de uma década. Virei matéria do segundo caderno de Zero Hora, Correio do Povo, Jornal Última Cena, etc. Eu chamava atenção de muita gente influente. Essa era a vantagem de ter 13 anos de idade, numa época em que muitos dos amigos intelectuais e artistas que eu dividia espaço cultural já contavam com mais de 40. Imagina só: ainda sou novo, segundo alguns e outros. E essa é a vantagem de possuir alguns anos a menos e ter sobrevivido para contar a história de personagens folclóricas que marcaram a sociedade ou, até mesmo, o underground urbano do século XX. A Turma do Parquão passou a existir em 1982, mas seus integrantes eram remanescentes do rock, da cultura pop e da intelectualidade marginal que frequentava bares dos anos 1960 (em diante) e festas culturais recheadas de artistas exóticos. Especificamente (e informalmente) a Turma do Parquão era formada pelos irmãos Machado, Hilário (uma versão cabocla de David Bowie e percurso do glitter rock no sul do país) e Humberto (ex-cineasta e beatnik genuíno, já fazia coisas em 1966 que ninguém sabia que existia no Brasil, amigo de Jefferson Barros que, no futuro, se renderia ao sistema indo trabalhar como diretor-chefe do Jornal da Globo ); Marco A. Prado Dreyer, mais conhecido como Guru, um intelectual que era discípulo de Humberto, que por um tempo seguia a esquerda e que, décadas depois, se converteria para a extrema direita. Guru curtia filosofia, mas acabou se formando em sociologia e que ficou famoso por passar semanas e madrugadas no quarto devorando quilos de livros; Jorge Licht, o Gonô, músico do final dos anos 1970, que morava na mesma rua de Hermes de Aquino e que retardou sua entrada no rock gaúcho, tornou-se músico da banda de apoio de Coié Lacerda somente na entrada do século XXI (resgatando assim, tardiamente, anseios de sua juventude) e chegou a acompanhar o músicos Plato Divorak em gravações demos; Roque, irmão, de Gonô, que era um comediante à moda antiga bem ao estilo de Oscarito e que era o Rei do Trocadilho, não tinha funcionalidade intelectual, mas equilibrava o humor da turma; Valter Waichel, professor de matemática, meio hippie, meio beat, meio freak e super autêntico fazendo todas essas denominações funcionar ao mesmo tempo (já falei dele no blogger da Bíblia do Rock") atraiu dezenas de fãs no circuito "cult" alternativo e, fechando a tampa do baú, entrou oficialmente para a Turma do Parquão. No final de 1989, o inefável Bodinho, codinome de Jorge Alberto Eisenhut (não por acaso, foi através deste que conheci Carlos Ducatti, "o homem que veio do planeta Orion), regressou a turma após um longo hiato rompido em 1984. Bodinho era reformista em matéria de filosofia, poeta, ativista pioneiro das causas ecológicas e mais um monte coisas. Ele fez parte do Clube Nova Era de Carlos Ducatti em 1972. Mas, eu já havia tocado neste assunto em uma matéria escrita meses atrás, onde o Barão de Itararé, era o carro-chefe e eu sugeria aos cineastas explorar histórias de personalidades mais interessantes que as celebridades efêmeras da atualidade em filmes mais relevantes. Analise, por exemplo. A vida do político Éneas Carneiro no lugar de uma produção de alguém do nível de Bruna Surfistinha não renderia mais? Quem possui empatia (ou muito menos que isso) entenderá o que eu estou tentando sugerir aos demais realizadores da Sétima Arte.
  Antes de me aprofundar no tema central, acho pertinente resumir (ou subtrair) boa parte de minha trajetória. Para quem não me conhece mais intimamente e só pensa que estou tocando projetos como A BÍBLIA DO CINEMA, A BÍBLIA DO ROCK e O AMOR NOS TEMPOS DA INTERNET, todos a serem lançados em livros e filmes, pouco sabe do meu contato com o homem que veio do Planeta Orion e de minhas experiências como ator de teatro. Repetindo, eu tinha 13 anos e ele 41. Eu estudava teatro e nem era cineasta ainda, muito menos jornalista, porém, havia muita vontade de explorar um intrigante personagem através de texto. Sim, eu já escrevia muito desde criança, desde quando me conheço por gente. Isso nasceu comigo e provavelmente morrerá um dia, mesmo que eu tenha o sonho de consumo de encontrar em tempo o segredo da imortalidade. (rsrsrs). Na época em que eu fui apresentado a Carlos Ducatti, minha inclinação era mais para os desenhos, os quadrinhos. Desenhei barbaridades e fiz tanto storyboard que percebi que o caminho mais lógico era fazer carreira e contar minhas histórias através do cinema. Desde os 10 anos de idade, eu era desenhista e tinha uma revista que era distribuída no centro da cidade chamada "Gurulândia", inspirada numa outra figura ilustre que abordarei num futuro próximo. Já o Almanaque da Turma do Parquão (alguns exemplares podem ser encontrados na Biblioteca Nacional), apresentava artigos, poemas. pensamentos e manifestações filosóficas de intelectuais da esquerda e direita gaúcha que viveram os anos rebeldes e haviam sido renegados pela elite. Eu era o menino prestígio que não tinha vivido nem os anos 60 e muito menos os 70, mas que tinha presença de espírito e vontade de retratar uma geração de contestadores que estavam a frente do seu tempo. Na verdade, era algo muito superior que discutir posicionamentos políticos de esquerda e direita, considerando que tais personalidades não se encaixavam a nenhum padrão vigente naquela época, final dos anos 1980. Entre muitas figuras que renderiam uma biografia ímpar havia o Santão, senhor efeminado de 80 anos, que nunca tinha feito sexo e ingeria altas porções de gemadas, para curtir os garotões, que passeavam na rua, sempre sentado em sua janela de frente para a fachada do prédio que visitava. O segredo de Santão, que nos quadrinhos se transformava em super herói, o Super Santão, era desafiar a libido, nunca chegar ao orgasmo. Já o segredo de Carlos Ducatti era nunca sair do planeta Terra (em vida) e criar o máximo de inventos a fim de surpreender as mentes primitivas. Triste história seria se a maioria dos textos que escreveu não fossem mais engraçados, em alguns momentos, que as publicações bem sucedidas de Millor Fernandes. Só o texto que ele escreveu sobre como viver com menos de um salário minimo arrancou gargalhadas de artistas influentes em uma das edições do Festival de Cinema de Gramado. Enfim... Tardiamente, há poucos dias, descobri que ele havia partido em 2015. Se existe plano astral certamente Carlos Ducatti está rindo de todos nós, seres inferiores que perdem tempo criticando a vida dos outros na internet. Posso adiantar que em boa parte da sua existência, Ducatti foi um entertainer de terceira via do mundo analógico. No próximo parágrafo, tentarei resumir o máximo possível sua passagem pela Terra.

Analógico, Ducatti dispensava o uso do celular com medo de ter sua energia toda sugada. (Foto protegida por direitos de imagem. Não tente reproduzi-la em outro espaço sem autorização).


  Antes de eu rememorar o filme que fiz com ele quando tinha somente 13 anos, mas que, hoje, mereceria uma remontagem (ou reebot), gostaria de apresentar o personagem como ele se apresentava ao público. No livro de poemas, "Vibrações Poéticas", que Carlos Ducatti lançou em dezembro de 1981, consta um prefácio escrito por Janer Cristaldo ("Um Orionino Adaptado") e, de forma inedita, uma crítica do prefácio (defendida pelo próprio autor da obra em questão). Cristaldo era doutor em Literatura Comparada pela Université de la Sorbonne Nouvelle - Paris III. Creio que vale a pena transcrever, aqui, suas palavras que constam no prefácio do livro sobre o tão questionado extraterrestre:
  "Desde minhas universidades venho acompanhando o trabalho tenaz e infatigável de Carlos Ducatti. Homem de preocupações cósmicas, nada do que é terráqueo a si alheio reputa, lutando tanto pela construção de um espaçoporto no Brasil para receber nossos vizinhos de outras galáxias como elaborando uma complexa parafernália destinada a exterminar pardais, ave monopolista e predatória (sem alusão alguma ao Bonfim, por favor!), cuja algaravia, além do mais, fere seus ouvidos. Doublé de cientista e poeta, criador e animador do Clube Nova Era, viajante astral, Ducatti é filho dos mais sintomáticos deste século conturbado. Exaustas as religiões, falidas as ideologias, é através da Razão - esta nova deusa - que Ducatti buscará Deus. Recente exposição sua - praticamente ignorada por uma imprensa superficial, encharcada de crimes e futebol - nos trazia a dedução matemática da existência de Deus. Jorge Luís Borges disse alhures crer na teologia como literatura fantástica, "es la perfección del género". O pensamento ducattiano move-se paralelamente ao de Borges, quando, em Teociência, diz ser a matemática "abstrata, intemporal, onipresente (...) não tem emoções e numa esfera se revela melhor. Assim como Deus". Lemos, aliás, em sua súmula biográfica, referência ao Ponto Aleph, outro tema típico da teodicéia - se assim podemos dizer - borgesiana".
  E segue:
"Ducatti nasceu em Cruz Alta, RS, comuna que já deu ao Brasil um não menor talento, mas descobriu que provém espiritualmente do planeta Orion e, com tal, sente-se entre nós adaptado. (...) Neste sentido, somos todos um pouco orioninos inadaptados, com a diferença de que não ousamos soltar as rédeas ao sonho. (...)"
  Na crítica do prefácio publicada no próprio livro (pelo autor) o folclore se manifestava com certa dose de inconformismo terreno. Carlos Ducatti não abria mão de sua verdade cósmica:
  "Recebi há poucos dias, no chalé da Praça Quinze, o prefácio de "Vibrações Poéticas", elaborado pelo colega e amigo Janer Cristaldo. De estilo colorido e agradável, apesar de tipicamente intelectual, o trabalho tem vários defeitos a corrigir.
  O título já estava errado, ao incluir a palavra "orionano" (foi retificado, após). Conforme convenção informática de minha criação, válida para mundos e países, o sufixo - ano (Ou -iano) designa habitantes de um certo lugar, e -ino, seus descendentes (biológicos ou espirituais), moradores noutro lugar. Eu, por exemplo, sou italiano, brasiliano (ou brasileiro) e orionino".
  E continua:
  "De 1974 a 1978, uma de minhas preocupações era construir um espaçoporto (elaborei até um projeto). Esqueci a ideia, pois apareceram outros grupos, no Brasil, interessados em tal objetivo. Sigo o princípio de "preencher lacunas", fazendo só aquilo que os outros não procuram fazer (e deve ser feito).
  Não sei odiar. Tenho grande respeito pelas criaturas da Natureza. Adoro ver, cheirar e beijar flores. Há, entretanto, desiquilíbrios ecológicos causados pela ignorância e ambição do homem. O pardal, originário da Ásia, invasor da Europa, trazido (há mais de meio século) para nosso país, é um pássaro antiecológico, vagabundo, arruaceiro, inimigo do tico-tico, do sabiá, etc.; constitui hoje a maior praga do Brasil. Combatê-lo é defender nossa bela e querida fauna".
  Finalmente completa:
  "Janer diz que somos todos inadaptados... Conforme o "Teste de Adaptação à Terra" (de minha autoria), aplicado em mais de trinta pessoas, eu sou terrivelmente inadaptado em todos os sentidos; posso dizer que seria dificílimo encontrar um indivíduo com semelhante grau de inadaptação a este planeta. Meu principal problema é supersensibilidade  crônica, e as soluções que descobri (a muito custo) até agora, não são suficientes.
  Para finalizar, declaro que não acredito que o Mestre Jesus tenha sido filho de um soldado romano. Suas características físicas e espirituais não se coadunam com tal ideia. Penso que seu pai era extraterrestre; ele  teria sido gerado, em Maria da Galiléia, através de... "concepção cósmica" (um processo que não entendo)".



  O livro "Vibrações Poéticas" era dividido nas seguintes unidades: Poemas Ecológicos, Poema Nutricional, Poemas Científicos, Poemas Culturais, Poemas Vivenciais, Poemas Líricos, Poemas Navexológicos, Poemas Mistos, Poemas Sociais, Poemas Filosóficos, Poemas Metafísicos e, por fim, Poemas Autobiográficos. Era uma forma que ele encontrou de contar sua história na década de 1980. Hoje, em dia, seu livro pode ser encontrado em anúncios do site Mercado Livre (o que me surpreende de tão "maldito" que era). Mas suas publicações posteriores tanto em livro quanto em panfletos, manifestos e impressos distribuídos pela cidade nunca sofriam indiferença. Boa parte de seu público era jovem e universitário (até onde pesquisei). Contudo, o escritor Humberto Machado, membro da Turma do Parquão elevava Carlos Ducatti como personagem irreverente que batia de frente com o provincianismo gaúcho.
  Mais tarde, exatamente num sábado, no dia 12 de agosto de 1989, no Instituto Cultural Português, na rua da República, número 53, em Porto Alegre, o cientista matemático (Carlos Ducatti) lançou outro livro, "Estudos Cometários", que em suas mirradas 30 páginas, apresentava explicações científicas (e consideradas satisfatórias, segundo o release) para diversos fenômenos: o aparecimento de cometas, a desordem orbital de Plutão, as crateras da Lua e outros astros, a inclinação do eixo da Terra (e, portanto, as estações do ano), a não-coincidência entre os pólos magnéticos e geográficos, a deriva dos continentes (relacionada com a Geografia física, terremotos e vulcões), a extinção dos dinossauros, a origem do petróleo e a possível futura aproximação do misterioso astro chamado "Absinto" ou "Hercólubus".



  Em 1991, participou do inacabado filme "A Mala", com o professor Valter Waichel. Nesse mesmo período queria lançar em livro-folheto, "Religião Cientifica", em edição limitada de mil exemplares. Enquanto isso, eu realizava novas entrevistas com Carlos Ducatti para reeditar o antidocumentário que fiz com ele. Na época, apesar de Ducatti ter sido o convidado especial, na realidade,  era o pano de fundo para intelectuais bebados discursarem contra o sistema. Era um filme maluco misturando atores e personalidades reais num único espaço. Anarquista demais, não funcionou nas escolas onde foi exibido de forma ambulante. A ideia era boa demais para acabar só nisso. Então, tinha resolvido também escrever uma peça de teatro sobre a trajetória do meu extraterrestre favorito (sic) e, neste turno, eu queria agradar o grande público. Os anos foram passando e eu fui me envolvente em outros projetos que me davam maior exposição e tive que deixar o "Homem que Veio do Planeta Orion" na geladeira.


DUCATTI FOI O PIONEIRO DO MOVIMENTO "GEEK"

Ele já usava a barba da moda tipo muçulmano que alguns jovens de hoje usam.


  Fisicamente, Carlos Antonio Ducatti, nasceu em Cruz Alta, em 1943, mas chegou em Porto Alegre dez anos depois. Conforme consta na súmula autobiográfica do livro "Vibrações Poéticas", entre 1963 e 1964, tirou o curso de Engenharia Militar do CPOR. Foi uma interessante experiência, segundo ele. Depois virou Aspirante a Oficial R/2, reformado. No começo, ele era católico. Pelos 17 anos, já era ateu. A crença retornou - racionalmente em 1970. Nos anos 1971 e 1972, dedicou-se ao curso de Metafísica e Auto-domínio da Ordem Rosacruz  AMORC (não o concluiu - pareceu-lhe pouco científico e monótono). Visitou muitas outras entidades religiosas e iniciáticas: Umbanda, Seicho-no-Ie, Meninos de Deus, Protestantismo, os Mórmons, Teosofia, Movimento Gnóstico, Ananda Marga, GFU (Grande Fraternidade Universal), etc. O conjunto chamado de suas ideias pode ser chamado de "Evolutismo".
  Durante 50 anos escreveu artigos filosóficos, científicos, demográficos, sociológicos psicológicos, etc. Não costumava citar nomes e fontes; a maior fonte era a sua própria vivência (observar - sentir - pensar). A divulgação deste material tinha recursos limitados. Também colecionava inventos mecânicos, eletrônicos, gráficos, figurativos, culturais, psicológicos (testes), arquitetônicos, do vestuário, nutricionais, e assim por diante. Seu Q.I. era 162. Alguns de seus inventos foram premiados em exposições científicas. Infelizmente nenhum foi patenteado ou comercializado.
  Em 1968 fundou o Clube dos Sábios, que em 1971 mudou de nome - Clube Nova Era. Dezenas de resoluções foram aprovadas pelo Grupo Deliberante (sábios que selecionou através do Teste de Sabedoria). Por deixarem de comparecer às reuniões culturais, desistiu (em 1976) de convocá-los. Foi quando parou de aplicar o referido teste.  A grande maioria dos sócios passaram a ser apenas contribuintes. O CNE contou com mais de 160 Associados e Colaboradores ("Cidadãos da Nova Era"), dos quais apenas continuaram pagando mensalidades. (Os mais famosos membros do Clube eram, segundo ele, os compositores-cantores Gilberto Gil, Raul Seixas e Jorge Mautner). Mas os simpatizantes não paravam de chegar. Também, publicou o Jornal Nova Era, logo no início de tudo, em 1972, com artigos e ensaios. Entre os colaboradores estava o ecologista José Lutzemberger.
  Longe de ser uma unanimidade entre os pirados de plantão, era visto, também, como um lunático pelos céticos do circuito oficial. Por outro lado, Carlos Ducatti tinha o respeito (ou era curtido como personagem folclórica) por artistas, intelectuais e jornalistas de um determinado segmento da nata gaúcha (como Luís Fernando Veríssimo, Rogério Mendelski, Ney Gastal, Sérgio Jockymann, Tuio Becker e Juremir Machado). Alguns roqueiros e atores de teatro e cinema acompanhavam as circulares que o próprio Ducatti distribuía pessoalmente numa maratona que durava horas. Embora não existisse internet, ele foi o pioneiro no conceito "geek",linha de comportamento hoje aceita e melhor compreendida graças as novas descobertas tecnológicas. Contudo, ele tinha sempre uma secretária antes e depois do surgimento do mundo virtual. Tinha fobia por muitas coisas, inclusive por alimentos (o açúcar lhe fazia mal), o que explicava seu corpo esquálido e muito deteriorado com o passar do tempo. Costumava culpar os espíritos do além (apelidados de Monstros do Planeta Gelado) por não conseguir arranjar uma secretária bonita para uso pessoal e, consequentemente, salvar a Terra da destruição. Chegou a organizar um concurso para eleger a "secretária ideal", mas como queria apenas as mais jovens, esteticamente exuberantes e apropriadas para a reprodução humana seu plano (de ter filhos que seriam chamados de "Duatonzinhos" 1, 2 e 3) afundou arrastando-o para crises de depressão (nitidamente beirava a um nível "light" de demência). Os planos frustrados e seu nome ausente nos jornais explicam o seu afastamento público na entrada do século XXI. Na primeira versão do meu filme, exibido nos anos 1990, em lugares alternativos e que rendeu inúmeras reportagens em jornais, ele conta em detalhes como se descobriu como alienígena e como nunca ninguém levou a sério seus inventos. Lembrando que ele foi um dos primeiros a criar balões para resolver o problema da cama de ozônio. Em contrapartida, era sempre ridicularizado quando queria vender para alguma empresa sua metralhadora que ajudava a exterminar ratos e baratas. Entre tantas coisas incomuns, ele inventou a caução para entrevista, situação que obrigava o jornalista a passar o texto a ele para correção sujeito a indenização. Curiosamente, entrevistei ele dezenas de vezes e nunca me obrigou a assinar nada. Pelo contrário, eu que conseguia assinatura dele para qualquer tipo de conteúdo que eu fosse usar como, por exemplo, o filme e também a peça de teatro biográfica que escrevi sobre sua personalidade. Fora isso, Carlos Ducatti, sob minha lupa, virou colaborador de texto do Almanaque da Turma do Parquão, do jornal Plantão e da revista Flash News.
  Recentemente, o nosso extraterrestre de Orion ganhou as páginas do livro "Apaixonados por Porto Alegre", lançado por José Luiz Prévidi, alguns anos atrás. Foi pelo site do jornalista que fiquei sabendo da morte daquele sempre negou ter viajado em um disco voador. Carlos Antonio Ducatti partiu de nosso planeta em março de 2015. Vi ele pessoalmente em algumas entrevistas que fiz no verão de 2012 em seu inacessível apartamento em frente a Casa de Cultura de Porto Alegre.



  Como podem ver sempre tive certa atração por personagens bizarros e ele é apenas uma vírgula de uma extensa galeria que, também, incluem alguns famosos já citados ou que pretendo citar neste blogger.

 


Carlos Ducatti, depois, Karlos Duat (segundo ele próprio), nos anos 1980, contemplando a Via Lactéa, no pátio de sua residência, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre.



Ducatti numa matéria do jornal Correio do Povo que falava a respeito de figuras de Porto Alegre, capital gaúcha. Ao lado, o não menos relevante ator David Camargo (já falecido). 


  Pois bem, como sempre repito. Se eu arranjar verba e conseguir restaurar a matriz original pretendo lançar o filme de forma independente, como fiz, com cenas raras de negativos que encontrei sobre o extraterrestre dando palestra na década de 1970 e pretendo reivindicar a trilha sonora que se encaixou como uma luva na primeira versão. Nunca Isao Tomita e Jean-Michel Jarret soaram tão bem quanto nesta oportunidade única que foi interagir com um ser tão exótico - que mais conquistava os curiosos pelas ideias reformistas que pelo mistério de ser ou não um alienígena incorporado. Cheguei esmiuçar essa questão na peça de teatro sobre Carlos Ducatti, que também está em meus planos para o futuro. Basta eu encontrar uma parceria sólida. Quem viver verá.



EM TEMPO: O autor (Emerson Links) está ciente de que Órion é uma constelação e não um planeta, porém esse era um argumento (o de ter vindo do PLANETA ORION) era algo que realmente o falecido cientista não abria mão, principalmente quando se apresentava aos veículos de comunicação e ou mesmo quando era abordado por algum jornalista interessado em escrever uma matéria. Pesquisem reportagens de arquivos dos jornais Zero Hora, Correio do Povo, Jornal RS, Jornal do Comércio e as reportagens audiovisuais da extinta TVE. Todos estes exclusivamente "Mídia Gaúcha".




TRECHO DE CARLOS DUCATTI, O HOMEM QUE VEIO DO PLANETA ORION, disponível no you tube:



  
Para saber mais sobre assuntos sobre Órion:







     

domingo, 30 de setembro de 2018

ENTREVISTA COM O CINEASTA CLÁSSICO BRÁZ CHEDIAK

  Nascido em 1 º de junho de 1942, em Três Corações, Minas Gerais, cria do Cinema Novo, começou como roteirista de filmes como "Mineirinho, Vivo ou Morto" e "Meu Pé de Laranja Lima" e trabalhou como assistente de direção com o renomado ator e cineasta Aurélio Teixeira, posteriormente foi diretor de atores consagrados em peças teatrais e em filmes realizados entre os anos 1960 e 1980. O decano em questão também se revelou como escritor e atualmente sobrevive em estado de reclusão dedicando-se apenas as causas humanitárias, como por exemplo, preocupar-se com o bem estar dos menores carentes. Embora, ele tenha colocado o cinema em stand by, manteve sua atividade intelectual lançando livros e, eventualmente, aceitando convites de eventos específicos.
  No presente momento, conforme urge a necessidade de registrar memórias em meu projeto em curso, o grande Bráz Chediak sai do seu casulo para conceder uma entrevista exclusiva que, de imediato, divido com vocês. 



EMERSON LINKS:

Naturalmente, vamos começar falando de sua carreira antes de idealizar o seu primeiro longa-metragem como diretor. Você sempre quis realizar esse topo de trabalho no cinema ou tinha em mente se aprimorar em outro segmento?

BRÁZ CHEDIAK:

Sempre, desde criança, eu sabia que faria cinema. Foi uma opção de vida.

EMERSON LINKS

Quais são suas maiores lembranças sobre a história do cinema?

BRÁZ CHEDIAK

As maiores lembranças são dos filmes que assisti (era um cinéfilo) e que me ajudaram a sobreviver a uma vida dura, de filho de operário numa cidade do interior, onde tudo era difícil. Hoje, penso que o cinema pra mim foi uma fuga para um lugar mais seguro, mais bonito.

EMERSON LINKS

Quais suas influências no cinema, tais como gênero de filme, atores e diretores?

BRÁZ CHEDIAK

Assistia a qualquer gênero de filme, portanto tive influências de muitos, muitos filmes e diretores. Mas sempre prestei mais atenção aos diretores e atores stanislavskianos, como Elia Kazan e Marlon Brando, por exemplo. E me apaixonei por John Ford, Alfred Hitchcock, Kurosawa e Fellini, entre dezenas de outros.

EMERSON LINKS

Você já pensou em seguir a carreira artística, mesmo que em esferas diferentes, do tipo "vou me experimentar como algo do nível de um jornalista inserido no circuito cultural"?

BRÁZ CHEDIAK

Dirigi muito teatro, já fiz música, experiência jornalística nunca tive, mas escrevo crônicas, contos e já publiquei um romance. Mas me dediquei mesmo foi ao cinema, foi minha profissão...

Bráz Chediak no auge da juventude. 


EMERSON LINKS

Você poderia nos contar como foram os seus primeiros passos na carreira antes de se consagrar comercialmente?

BRÁZ CHEDIAK

Comecei como ator de teatro, depois ator de cinema ("O Homem que Roubou a Copa do Mundo", de Victor Lima), depois roteirista, assistente de direção, de produção, de montagem, etc, etc. Até que me tornei diretor. Ao contrário de muitos que começam dirigindo, percorri uma longa estrada como aprendiz. Daí, talvez, meu conhecimento e rigor técnico. Creio que todos os jovens devem aprender tudo: de atuar a lançar o filme. Às vezes, até mesmo ver a reação do público: sempre dá pra fazer um ajuste para tirar a monotonia, corrigir um ritmo, etc.

EMERSON LINKS

Como foi a experiência em seu primeiro trabalho de direção?

BRÁZ CHEDIAK

Péssima. Fiz um péssimo trabalho, me preocupei com o ritmo exterior e me esqueci do ritmo interior. Me descuidei da técnica, não dirigi bem os atores... Enfim, fiz uma grossa porcaria.

EMERSON LINKS

Você trabalhou também com grandes nomes como Glauce Rocha, Emiliano Queiroz e Jece Valadão em "Navalha na Carne". Qual foi a sensação de fazer parte disto? Você já tinha consciência de estar trabalhando em algo que seria reconhecido como clássico no futuro?

BRÁZ CHEDIAK

Sempre trabalhei com grandes atores. Além dos que você cita, trabalhei com Lucélia Santos, Nelson Xavier, Milton Moraes, Monah Delacy, José Lewgoy, Madame Morineay, etc, etc, etc.
Quando filmamos pensamos apenas no filme, se se torna um clássico ou não só o tempo dirá. Hoje, "O Navalha, Dois Perdidos Numa Noite Suja, Bonitinha, mas Ordinária", etc, etc, são muito revistos, comentados. Isto é bom. Ajuda as novas gerações a conhecer um pouco de nossa história. E fico feliz quando outros atores os estudam.

O jovem cineasta Chediak.


Jece Valadão e Glauce Rocha em ação.


EMERSON LINKS

O que você achou da nova versão de "A Navalha na Carne", rodada anos depois, na década de 1990?

BRÁZ CHEDIAK

Não vi. Já refilmaram "Dois Perdidos, Bonitinha", etc, mas nunca vi nenhuma refilmagem. Aliás, não vejo nem meus próprios filmes. Sou avesso ao narcisismo, artístico ou não.

EMERSON LINKS

Seu trabalho seguinte foi o longa "Dois Perdidos numa Noite Suja" (1970). Comente suas experiências ao participar desta produção.

BRÁZ CHEDIAK

Foi difícil. O filme foi feito sem nenhum recurso. Às vezes não tínhamos nem o negativo. O filme foi lançado - veja que absurdo - nos mesmos cinemas em que saía "Perdidos na Noite" e isso confundiu o público. Ou seja: houve sabotagem de todos os lados. Mas o filme está aí. As interpretações do Nelson Xavier e do Emiliano Queiroz são maravilhosas. A fotografia do Hélio Silva é ótima, etc, etc.

EMERSON LINKS

Fale sobre a oportunidade que você teve para escrever o roteiro do filme "Meu Pé de Laranja Lima", que fez muito sucesso (principalmente) quando este foi exibido na TV.

BRÁZ CHEDIAK

O Aurélio, meu amigo, excelente e injustiçado diretor, não estava bem de saúde e o Herbert Richards estava com receio dele não conseguir fazer o filme. Encontrei-me, casualmente, com a Gracinda Freire, esposa do Aurélio, e ela me falou das dificuldades, que o roteiro não andava, etc.

Eu havia dirigido "Navalha na Carne" e preparava o lançamento, mas o Aurélio era um grande amigo e fui à casa dele. Conversamos e, no dia seguinte, fui ao estúdio e falei com o Herbert que ia fazer o filme com o Aurélio, que faria o roteiro, prepararia a produção e faria assistência de direção; O Herbert me perguntou se eu ficaria durante toda a filmagem e eu me comprometi em acompanhar todo o filme. Os contratos foram assinados no mesmo dia.

Acabei dirigindo os atores, já que o Aurélio também atuava e não tinha paciência com crianças. Fiquei até o fim das filmagens, da montagem, da sonorização... Enfim... Até o filme ser lançado. Foi um sucesso estrondoso. Fiquei feliz. O Aurélio estava precisando muito e o filme o revigorou. Que grande diretor era o Aurélio.

Capa do DVD, lançado décadas depois do sucesso em 1970.


EMERSON LINKS

Ainda em 1970, quando você dirigiu o filme "Dois Perdidos numa Noite Suja", onde você voltou a trabalhar com Emiliano Queiroz e este se consagrou, dividindo cenas com o saudoso Nelson Xavier. Esse trabalho foi proibido pela Censura Federal? Qual foi a recepção do público, na época?

BRÁZ CHEDIAK

A censura sempre me incomodava. Exigiu o corte de diálogos, mas contornei a situação. Os censores não eram lá muito inteligentes. O filme não foi um sucesso de público ou de crítica. Mas fez sua carreira, pagou-se. Hoje dão mais valor, principalmente às interpretações dos atores que, na época, foram recebidas com ressalvas.



EMERSON LINKS

Em 1971, você fez "As Confissões do Frei Abóbora". Comente esse filme, estrelado por Tarcísio Meira, Norma Benguell, Osvaldo Loureiro e Jacqueline Myrna, e com roteiro novamente co-escrito por Nelson Xavier e Emiliano Queiroz repetindo a parceria como ator.

BRÁZ CHEDIAK

Foi um filme que fiz porque precisava de dinheiro. Minha mulher estava grávida e eu tinha que pagar aluguel, comer, vestir, etc.

A então família Chediak, na época. O bebê é o atual cantor e músico, Yassir Chediak.


BRÁZ CHEDIAK

O Herbert Richers deu todo o apoio. Era um ótimo produtor, mas eu não me esforcei. Foi bom trabalhar com o Tarcísio, com a Norma, com o senhor Loureiro (pai do ator Oswaldo Loureiro, recém falecido) e, também, com a Lia Torá, que pouca gente conhece, que tinha retornado de Hollywood. E com Jacqueline Myrna. Não me recordo do restante do elenco.

A música do Egberto Gismonti é ótima, os atores são ótimos... mas não gostei do meu trabalho. Não fui bom diretor.



EMERSON LINKS

Qual era a sua visão sobre as chanchadas da Atlântida, Herbert Richers e demais produtoras, nos anos 1950 e 1960?

BRÁZ CHEDIAK

Ótimas. Elas atraíam grande público para o cinema brasileiro. Os filmes brasileiros eram os de maior porque não tinham legendas, todos entendiam.



É um gênero que havia em diversos países, mas, aqui, foram desrespeitadas pelos "intelectuais" e alguns "artistas" da época. Mas foram muito importantes. Graças a elas temos hoje um bom panorama de nossos cantores, cantoras, atores e atrizes daquele período. As chanchadas me lembram a frase do Nelson (Rodrigues): "O brasileiro é um Narciso às avessas. Cospe na própria imagem!". E cuspiram nas chanchadas que eram tão amadas pelo público mais simples, mais humilde...

EMERSON LINKS

Como você se via, nos anos 1960, tempos do Cinema Novo?

BRÁZ CHEDIAK

Eu não fazia distinção entre Cinema Novo ou Cinema Comercial. Conhecia todo mundo. Era amigo de quase todo mundo e fazia meu trabalho. Gostava muito de conversar com o Glauber, com o Tanko... O Cinema Novo foi um movimento necessário, mas não eram necessárias as agressões que alguns de seus membros faziam aos que eram chamados de "diretores comerciais". Mas isso faz parte da juventude, quando o cérebro ainda não está formado. Quanto aos filmes, só o tempo dirá.

EMERSON LINKS

Por que, no seu entender, "algumas" comédias românticas passaram a ser taxadas de "pornochanchadas", um rótulo incomodo (para alguns realizadores) e que se prolongaria por décadas. Qual era a visão que você tinha sobre esse gênero na épocaa?

BRÁZ CHEDIAK

O rótulo foi criado para fortalecer a censura, para afastar o público das salas. Usando a palavra "pornô", a censura recrudesceu. O público prestigiou o novo gênero, que não tinha nada de pornográfico. Hoje passam até nas sessões infantis da TV. A pornografia, e cujo rótulo, ainda hoje, usado por alguns de nossos intelectuais quando querem mostrar-se sérios, comprometidos, etc. A pornografia veio depois, com o video. Aí sim, os que censuravam as chamadas pornochanchadas levavam fitas de pornografia explícita para assistir em casa.

EMERSON LINKS

Em 1973, você dividiu espaço com dois diretores, Pedro Carlos Rovai e Aurélio Teixeira, no mesmo longa, "Os Mansos". Que memórias esse projeto deixou para a posteridade?

BRÁZ CHEDIAK

O que mais chama atenção é que, no episódio que dirigi, convidei o escritor Paulo Coelho para o papel principal. Era um cara legal, amigo de todo mundo e bom ator. Nós éramos amigos e o convidei. Ele topou. O filme foi um sucesso. Paulo Coelho deu um show de comicidade.



EMERSON LINKS

Em "Banana Mecânica" (1974), você trabalhou com Carlos Imperial (figura controversa na música, mas introdutor do rock and roll no Brasil e mais os renomados Ary Fontoura, Felipe Carone, Henriquietta Brieba e Zezé Motta. Quem teve a ideia de realizar essa comedia?

BRÁZ CHEDIAK

A ideia foi do Imperial. Fizemos um filme sem roteiro, mas o Imperial tinha boa noção do que queria e equilibramos o trabalho. Ele era um cara generoso e muito inteligente. Ary Fontoura, Felipe Carone, Henriquetta Brieba já haviam trabalhado comigo em outros filmes e éramos muito amigos. A Zezé Motta, maravilhosa atriz, foi indicada pelo Nelson Xavier. Achei que ela não toparia. Era um papel pequeno, sem chances de grande interpretação, mas o Nelson me garantiu que ela faria e a chamei. É ótima atriz. Ótima pessoa. Ainda teve, no mesmo filme, a Nélia Paula, a Rose de Primo, a Kate Lyra, e uma porção de gente que não lembro mais.

EMERSON LINKS

No longa "O Roubo das Calcinhas" (1975), você dividiu esse momento com o cineasta Sindoval Aguiar. Um filme dois em um. Quais são suas principais memórias sobre esse trabalho?

BRÁZ CHEDIAK

Com este filme voltei ao ambiente que gosto: as ruelas, as casas pobres, as prostitutas, os golpistas, etc. Pensei muito em Mario Monicelli enquanto filmava meu episódio. A história dos dois episódios eram minhas e roteirizei com o Cecil Thiré e o Sindoval. O Arnaud Rodrigues também participou. O diretor de produção, Maurício Nabuco, que era também ator, teve problemas de saúde no segundo episódio e assumi a direção de produção (episódio dirigido pelo Sindoval) e, consequentemente, mudamos alguns cenários, mudei alguns técnicos e as coisas se ajustaram. O filme foi um dos maiores sucessos, no Brasil.



EMERSON LINKS

De repente, surgiu a comedia "Eu Dou o que Ela Gosta" (1975), onde trazia como protagonistas Ênio Gonçalves e Fernanda de Jesus. De onde surgiu a ideia do título, um tanto sugestivo? As presenças dos veteranos José Lewgoy, Milton Carneiro, Monah Delacy, Henriquetta Brieba e Sérgio Hingst deram um tempero a mais ao filme? Mas, enfim, esse filme lhe trouxe prazer pessoal ou foi uma experiência circunstancial?

BRÁZ CHEDIAK

Eu havia combinado com o Sindoval Aguiar de produzirmos um filme juntos. Deveria ser "O Roubo das Calcinhas", mas o dinheiro não deu. Então fizemos o "Eu Dou o que Ela Gosta". Temos um bom elenco, bons técnicos, etc, mas foi apenas um exercício profissional. Como nunca fui financiado por órgãos públicos e queria viver apenas de cinema, tinha que abrir essas concessões.

Mas o filme está aí. É válido, como você pode ver. O elenco é o mesmo de muitos filmes meus. E lancei Fernanda de Jesus, que se mostrou boa atriz. Leda Zeppelin, excelente, tem uma interpretação digna de nota, mas ela desapareceu de repente, não sei o motivo.

O título... é o seguinte: num trailer que assisti na época, havia uma narração: "O que elas gostam não é mole, não...". E o público ria. Resolvi sintetizar, tirar o excesso da narrativa, colocar no plural, e ficou o título "Eu Dou o que Ela Gosta".


Ênio Gonçalves e Fernanda de Jesus em cena.

Em 1975, Fernanda de Jesus debutava no cinema, tornando-se musa em tal época.


EMERSON LINKS

Em "O Grande Desbum" (1978), você teve Ney Latorraca e Marília Pera no elenco. O que te atraiu realizar esse projeto?

BRÁZ CHEDIAK

Dirigi em parceria com Antônio Pedro, grande diretor e ator. Mas o filme ficou sem personalidade, apesar do elenco maravilhoso, liderado por Marília Pera (uma das melhores atrizes brasileiras de todos os tempos). Mas o filme não deu certo. Até hoje me sinto triste porque não realizei um filme mais denso com a Marília. Prometi a ela, quis fazer esse filme, mas não consegui descobrir uma história e levantar a verba. Sinto muita saudade da Marília.



EMERSON LINKS

Em "Perdoa-me Por Me Traíres" (1980), você contou com a forte presença "física" de Vera Fischer, atriz que tinha um dos corpos mais sensuais da época. Você tinha consciência de que esse recurso de usar o erotismo ajudava a vender uma obra audiovisual?

BRÁZ CHEDIAK

O filme não tem erotismo. Vera Fischer é uma grande atriz e, me perdoem os outros diretores, considero "Perdoa-me Por Me Traíres" o melhor desempenho de sua carreira. Tem momentos em que ela parece uma Ingrid Bergman na maneira de representar. Vera está comovente fazendo Judith. A beleza dela estava apenas a serviço da interpretação. E ela é ótima intérprete. Acho que está na hora da jovem crítica dar uma olhada na interpretação dela. Vale a pena. Lídia Brondi, Rubens Corrêa, Monah Delacy, Angela Leal, Nuno Leal Maia, Zaira Zambelli... Estão todos muito bem. Grandes interpretações.


Lídia Brondi em diversos momentos do longa-metragem.


EMERSON LINKS

Quais foram os ingredientes dos seus filmes responsáveis por sua popularidade como cineasta? Foram as atrizes em destaque, o roteiro ou o contexto oferecido como alternativa de entretenimento momentâneo?

BRÁZ CHEDIAK

Foi o trabalho. Fiz filmes de diversos gêneros em diversos momentos. Trabalhei duro, 18 horas por dia, durante muito tempo e isso me levou a conhecer meu ofício e a que ele se dirigia. Fiz bons roteiros e errei em outros, trabalhei com bons atores e boas atrizes, participei do entretenimento mas "Navalha na Carne", que não é entretenimento foi um grande sucesso... Mas o que mais me importava era trabalhar, estudar, levar à sério a profissão que escolhi para viver.

EMERSON LINKS

Reza a lenda que muitas atrizes de sucesso ou mesmo fenômenos fugazes foram lançadas por você como diretor. Você se sentiu gratificado nesse sentido?

BRÁZ CHEDIAK

Nunca pensei sobre isso. Aliás, nem acompanhei a carreira das atrizes ou atores que lancei. Mas fico feliz quando alguém reconhece que trabalhar comigo serviu para alguma coisa. Arte é aprendizado.



EMERSON LINKS

Você filmou Nelson Rodrigues, "Bonitinha, Mas Ordinária" (1981). Fale sobre esse trabalho, que também foi um sucesso estrelado por José Wilker, Vera Fischer e Lucélia Santos.

BRÁZ CHEDIAK

Era um sonho antigo filmar Nelson Rodrigues. Fiz a adaptação com ele, o que foi um grande prazer. O elenco é estelar: grandes atores, grandes atrizes. E, como sempre faço, convidei uma velha e maravilhosa atriz, Madame Henriette Morineau ("Em Perdoa-me Por Me Traíres", convidei além de Madame Morineau, Sady Cabral). Gosto de trabalhar com os mestres. Mas, como dizia, formei um elenco ótimo. A única coisa que ninguém ficou sabendo é que o 1º Peixoto seria o Daniel Filho (um ator rodrigueano por excelência). Mas as filmagens atrasaram e ele teve que fazer um trabalho para a Globo, em Paris. Entrou, então, o Milton Gonçalves, que também deu um show. O filme se transformou num sucesso incrível.



EMERSON LINKS

Finalmente, o longa "Álbum de Família" (1982), onde você trabalhou com a talentosa Dina Sfat e novamente com Lucélia Santos, porém, isso encerrou uma etapa profissional de sua vida ou um exílio temporário?

BRÁZ CHEDIAK

"Album de Família" fiz a pedido do Nelson. Não é meu gênero, mas ele insistiu e filmei. Lucélia, como sempre, está sempre, está magistral. Marcus Alvisi, Rubens Corrêa, Vanda Lacerda... estão todos bem. A fotografia do Hélio Silva também é um destaque, assim como a música de John Neschling.




EMERSON LINKS

Você já pensou em se associar a outros talentos, produzindo histórias, projetos promissores ou pretende parar por aí?

BRÁZ CHEDIAK

Sim, já pensei, mas fazer captação não é meu forte. Mas gostaria de fazer outro filme com Lucélia, uma atriz visceral, e com tanta gente nova que está dando shows de interpretações. Me agrada trabalhar com bons atores e atrizes.

Bráz Chediak e Lucélia Santos.


EMERSON LINKS

Foi uma surpresa para parte do público saber que no resto do país, conforme aponta a matéria que escrevi para o blog sobre várias produções independentes que não recorreram a Lei Rouanet e editais. O que você teria a comentar sobre isso?

BRÁZ CHEDIAK

Nunca fiz filme com a Lei Rouanet. Uma vez me inscrevi para um filme BO (baixo orçamento) mas, mesmo com minha trajetória, com minha biografia, me negaram. Isso num ano em que financiaram filmes de milhões e milhões de reais. Então vi que em jogo de cartas marcadas você só perde tempo, tentando.



EMERSON LINKS

Você pretende assistir essas produções independentes citadas anteriormente por mim no blog A BÍBLIA DO CINEMA, como é o caso do longa O DIÁRIO DE UM EXORCISTA, de Renato Siqueira? Ou como Evandro Berlesi, do Rio Grande do Sul, que criou o grupo de cinema independente ALVOROÇO? Ou mesmo Dimas Oliveira Junior que com os grupos formados na Oficina Rosina Pagan, em São Paulo, realiza filmes fora do circuito? Obs. Eu mesmo estou tocando, como você sabe, os já mencionados A BÍBLIA DO CINEMA, A BÍBLIA DO ROCK e O AMOR NOS TEMPOS DA INTERNET. Todos estes livros e longas-metragens estão em curso. Enfim, você pretende assistir os cineastas acima citados a fim de se atualizar e passar um pouco da sua experiência através de parcerias entre diferentes gerações?

BRÁZ CHEDIAK

Acho que vocês estão fazendo um bom trabalho. São boias de salvação num país que não preza muito a cultura. Continuem. Torço por vocês, sempre. Quem sabe um dia faremos uma parceria?

EMERSON LINKS

Você acredita que esse movimento possa se tornar forte a ponto de influenciar as grandes produtoras a investir em novos talentos?

BRÁZ CHEDIAK

Sim, mas sempre pensando que o mercado é mais aberto para o longa-metragem. O cinema brasileiro precisa reconquistar seu público, ainda que a concorrência com as super produções de Hollywood seja terrível. Mas quem sabe encontrarão um caminho, como o neo realismo italiano encontrou, por exemplo! Fizeram filmes de baixo custo, fáceis de ser compreendidos e amados pelo público, e conquistaram o mundo. No Brasil, isto pode acontecer.

EMERSON LINKS

Sobre a polêmica em torno da extinção do Ministério da Cultural e CPI da Lei Rouanet o que você teria a declarar?

BRÁZ CHEDIAK

Não posso fazer uma análise, já que nunca fiz filmes com a Lei Rouanet e nem estou atualizado sobre o assunto. Creio que este assunto deve ser debatido com toda a classe artística brasileira, antes de ser tomada qualquer decisão.



EMERSON LINKS

Cite um ou mais injustiçados do cinema brasileiro.

BRÁZ CHEDIAK

Lima Barreto e Aurélio Teixeira deveriam ser mais estudados. Todos os diretores, atores, técnicos, deveriam ser mais estudados. J. B. Tanko, Watson Macedo, Vitor Lima, Hugo Christensen, Walter Hugo Khouri, Roberto Pires, Luís Paulino... Não cito os vivos porque ainda estão completando suas obras, mas temos muitos ótimos.

Carlos Hugo Christensen, um dos injustiçados do cinema.


ENCERRANDO...

EMERSON LINKS

Que conselho você daria a um profissional que esteja, agora, iniciando um projeto de cinema, hoje, baseando-se na sua experiência e exemplo como profissional da classe?

BRAZ CHEDIAK

Pense apenas no filme que está fazendo, esqueça comentários, notícias, etc. E trabalhe. Trabalhe muito. Procure grandes atores e atrizes (não precisa ter muito nome) com os quais tenha afinidade. E utilize cenários novos, não cenários gastos. Não esqueça o ritmo – interior e exterior, estamos na era da Internet, vivendo num “mundo fluído”, nos dizeres de Bauman. E NÃO SIGA MEUS CONSELHOS.

EMERSON LINKS

Revele qual pergunta gostaria que lhe fizesse numa entrevista e ainda não foi feita, até então. Coloque tal pergunta e possível resposta.

BRAZ CHEDIAK

Acho que do jeito que está dá pra ter uma visão geral, sem ficar cansativo. Você selecionou bem as perguntas, Emerson. Grande abraço.


Para saber mais sobre o cineasta, assista no you tube clicando no video abaixo:




Confira alguns filmes lançados por BRAZ CHEDIAK no cinema:


NAVALHA NA CARNE



DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA


AS CONFISSÕES DO FREI ABÓBORA


OS MANSOS

BANANA MECÂNICA


O ROUBO DAS CALCINHAS

EU DOU O QUE ELA GOSTA

BONITINHA MAS ORDINÁRIA




UM DOS LIVROS LANÇADOS POR BRÁZ CHEDIAK.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

LONGA-METRAGEM "CIDADE DORMITÓRIO" - ENTREVISTAS COM DIRETOR E ELENCO NA NOITE DE ESTREIA

  Na postagem anterior, todos os leitores do blogger puderam conferir a matéria que escrevi sobre o novo filme do cineasta gaúcho Evandro Berlesi, lançado no dia 10 de agosto do ano corrente, no Teatro Bruno Kiefer, Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, capital gaúcha. Agora, divido com vocês as entrevistas exclusivas que realizei com alguns atores e o diretor alvoradense. Se puderem comentar depois no final desta página, ficarei muito grato e obviamente continuarei a realizar outros trabalhos de cobertura como este a fim prestigiar os grandes talentos.

JÁ DISPONÍVEL NO YOU TUBE:

 O DISCURSO DE ABERTURA. (Clique em cima da imagem e assista).

ENTREVISTAS COM OS ATORES DO FILME. (Clique em cima da imagem e assista)

A ENTREVISTA COM O CINEASTA. (Clique em cima da imagem e assista)



ALGUNS FLAGRANTES DA NOITE DE ESTREIA
Parte do cast  e cineasta posando para os fotógrafos num momento de descontração após a exibição do filme.

O ator Edimilso Silva.

A atriz Milena Pilau e Evandro Berlesi.

O veterano ator de longas-metragens e comerciais, Sirmar Antunes.

Lesi Morato e Marcelo Maresia, numa das sequências do filme.

Anita Dal Moro e Martina Pilau em uma cena dramática.

Anderson Dravasie, o protagonista do longa anterior, "O Maníaco do Facebook", prestigiando o evento.

Nunes Miguelangelo que interpreta o político mal intencionado, presente na estreia.


O LEITOR PODERÁ OBTER UMA COMPREENSÃO MAIOR SOBRE ESSE LANÇAMENTO DIRIGINDO-SE A POSTAGEM ANTERIOR ONDE CONSTA A MATÉRIA QUE ESCREVI DE FORMA MINUCIOSA E IMPARCIAL. (Acreditem!)

sábado, 11 de agosto de 2018

CIDADE DORMITÓRIO, NOVO LONGA-METRAGEM DE EVANDRO BERLESI EXPÕE A POLÍTICA DOS CIDADÃOS OPORTUNISTAS

Cineasta com jeito de artista pop pós-nerd e visual meio geek, Evandro Berlesi, lança sua nova produção, desta vez, destacando-se mais como diretor e colocando a mão na frase que não quer calar na mente de cada brasileiro que enfrenta uma crise interna de valores morais: "A gente Somos Inúteis".

Evandro em "estado natural", em seu programa de TV.

A atriz Martina Pilau posa para o cartaz do making of.


Texto: Emerson Links.


   Pra começo de conversa, nem o frio do então inverno rigoroso de Porto Alegre impediu que eu recusa-se o convite de estreia do filme de uma persona que eu considero responsável pelo novo cinema gaúcho (e por que não?, brasileiro) do século XXI. Evandro Berlesi, nosso entrevistado do ano passado, é um cineasta independente, autodidata (diga-se de passagem), que lidera um movimento e uma produtora (o grupo ALVOROÇO) que realiza filmes ambientados na própria região que habita (no caso, Alvorada, cidade da região metropolitana, também conhecida como uma das  mais violentas da América Latina). Pois bem. Antes de avançar nas principais considerações Considero-me qualificado para fazer tal elogio acima. Não pelos cerca de 3 filmes que assisto por dia (o que em um ano totaliza-se 900 filmes assistidos), nem pelo meu trabalho obsessivo sobre a história do cinema (que resultará no livro A BÍBLIA DO CINEMA, como também, outro grande trabalho multimídia a BÍBLIA DO ROCK me consumiram 19 anos em diversas pesquisas e captações de imagens, afinal eu estava reconstituindo seis décadas de música). Maiores detalhes sobre meus projetos, o leitor poderá pesquisar em meus blogs, especialmente o não citado Fabrica de Roteiros. Por outro lado, minha dedicação profunda em estudar meticulosamente, entrevistar e biografar todos os sobreviventes da Sétima Arte (referindo-me a BÍBLIA DO CINEMA) me alavancou para uma estratosfera jamais imaginada. Porém, levando em conta que o cinema tem mais de cem anos de história e ainda sou um pouco jovem seria impossível eu ressuscitar todos aqueles que partiram antes para eu me autoproclamar o mais completo possível (e, óbvio que isso não existe, o que existe é você ser o melhor naquilo que sabe fazer profissionalmente e compartilhar isso para com os demais). Em compensação, sem vaidade pessoal, concluo que viverei um pouco mais (se Deus e as forças cósmicas permitirem) para conhecer os novos talentos da história do nosso cinema. Nem por isso deixei de conhecer, em tempos remotos, os pioneiros que, até então, estavam vivos como Nelson Pereira dos Santos, Roberto Farias e, sobretudo o grande pesquisador Antonio Jesus Pfeil, e assim por diante. Vale dizer que meu senso crítico independente (apolítico) e o compromisso de fazer um jornalismo investigativo se tornaram mais úteis que centenas de cursos que fiz durante minha trajetória audiovisual (ainda em construção). São coisas que sempre me ajudaram a filtrar, separar o joio do trigo, "este daquele", afinal o meio artístico (beneficiado pelas maravilhas da tecnologia mais democráticas em nível de produção) igualmente abriu as portas para aventureiros, canastrões e celebridades instantâneas. Com tantos jovens que se formam em universidades e sequer criam coragem para tocar adiante seus projetos, não muito longe deste hemisfério, surgem os "novos desbravadores" ou simplesmente videomakers, que cresceram juntamente com o fenômeno da comunicação chamado internet e que fizeram parte de uma geração cerebral e analógica, cujo o culto pelo "sentimento de descoberta" acabou sendo compartilhado, aprimorado e transformado em algo "original". Claro que existem algumas exceções no atual circuito acadêmico, mas o que a história tem mostrado é que os autodidatas e independentes estão ganhando de goleada do mainstream. Se o brasileiro comum se conforma com as comedias descartáveis e repetitivas, as chatices intimistas dirigidas por determinados atores consagrados ou ainda com os "filmes com pura masturbação ideológica que se acham moderninhos", vai descobrir que o cinema do século XXI pode ser muito mais que isso ao assistir filmes que rompem a mesmice como "Alice Diz", de Beto Rôa, "A Noite dos Chupacabras", de Rodrigo Aragão, "Desaparecidos", de David Shurmann, "A Repartição do Tempo", de Santiago Dellape, e finalmente o já mencionado Evandro Berlesi com seus últimos longas produzidos entre 2015 e a presente data (respectivamente "O Maníaco do Facebook" e "Cidade Dormitório"). Sim, estes últimos filmes, porque é neles que reside a fase que considero mais amadurecida do trabalho deste cineasta, que abordarei nesta nova matéria.

Evandro Berlesi na noite de estreia, numa sexta-feira, dia 10 de agosto de 2018, Teatro Bruno Kiefer, CCMQ, Porto Alegre-RS.

Evandro dirigindo atores do novo longa.

Os colaboradores voluntários de uma das sequências do filme.

Nunes Miguelangelo em cena e, em primeiro plano, outro personagem da história.

Edimilso Silva em um papel surpreendente, porém "econômico". Merecia maiores vôos na história.


ANÁLISE SEM SPOILER.

  Indo direto ao ponto. "Cidade Dormitório" é um drama de costumes que retrata a hipocrisia de uma população que existe em qualquer parte do país, ou seja, o filme poderia ser ambientado em qualquer metrópole, pois os variados núcleos sociais encontram ressonância de tal natureza onde quer que a câmera vá. Outra coisa. Por mais que negue durante seu discurso de agradecimento, antes da exibição do longa-metragem, Evandro não abandonou o seu humor pop cult (de criticar a ignorância cultural das pessoas de um modo geral). Neste novo trabalho, as passagens piadistas são apenas mais econômicas que nos filmes anteriores, pois ficam embutidas e prontas para brilhar no momento mais tenso em que uma situação de determinados personagens esteja prestes a explodir. Como também sou cineasta, roteirista e jornalista (também já fui ator), acredito que nosso subconsciente sustente diversas influências e que em algum trabalho normalmente sempre acabamos homenageando com uma nova embalagem, mas isso não significa que haja ausência de originalidade, apenas transformamos as lições do passado em algo maior. Em "Cidade Dormitório", Berlesi, talvez sem se dar conta, traz à tona citações que vão de Woody Allen a Jim Jarmusch. Personagens muito humanos e com muitos defeitos para com o próximo, mas que nunca esbarram no engajamento ideológico gratuito e transitam cada qual em seu habitat (diversas localidades são mostradas na tela no decorrer da película. O diretor não possui apenas o talento de realizar um filme com orçamento mísero e se parecer com qualquer produção modesta do cinema nacional, ele também consegue transformar atores amadores em artistas promissores. Palmas para o ator (Nunes Miguelangelo) que interpreta o político corrupto (que se sobressai mesmo sem um currículo nas mãos) e a menina (Anna Karolina Oliveira) que faz a personagem Kelly, que sofreu assédio sexual do próprio pai, na trama. São momentos em que um realizador mostra o quão realmente é possível fazer de um limão uma boa limonada. Poucos atores parecem perdidos justamente por aparecerem muito pouco em cena e, por esse motivo sempre real e concreto em demais produções, nada chega a comprometer o produto final da obra. Nesta versão estendida de "Cidade Dormitório" muitos momentos soam dispersos nem por isso irrelevantes (o Canal Brasil recusou o filme no primeiro contato - me corrijam se for o caso - mas posteriormente fechou com um novo acordo). Não creio que o canal tenha sido justo. Apesar dos pesares pesando, Berlesi atinge a sutileza que o roteiro propõe, mesmo se tornando irregular na versão exibida na tela do Teatro Bruno Kiefer.

Anita Dal Moro, em seu segundo filme do grupo Alvoroço.


O estreante Nicolas Vargas faz um jovem que se relaciona com uma mulher mais velha.

A dupla formada por Fabricio Miranda e Chuck.

  Navegando pelas mesmas águas, faço questão de se referir a mim mesmo e vocês logo entenderão a motivação, afirmando que é comum o diretor sentir pena de cortar essa ou aquela cena. Sei disso porque a primeira versão que escrevi para o roteiro de "O Amor nos Tempos da Internet" tinha 420 páginas e que tive que reduzir, pelo menos, para 160 (em breve será lançada em livro e futuramente em filme), mas, em caso de outras produções, não muito comum no cinema nacional, a metragem mais longa esclarece duvidas que sempre ficam quando assistimos uma versão condensada nos cinemas. Por exemplo, "Memórias do Carcere", de Nelson Pereira dos Santos, é um filme nacional, produzido em 1983 e lançado em 1984, com três horas de duração. Na época, quando exibido nos cinemas ninguém reclamou de sua duração. Internacionalmente falando, o oscarizado "Amadeus", peça de teatro transformada em filme sobre o relacionamento do músico Salieri com Mozart, fica melhor na versão estendida lançada em DVD / Blu-Ray. Recentemente assisti filmes musicais que ficaram bem melhor em sua metragem ampliada, caso de "Os Embalos de Sábado a Noite", com John Travolta, lançado em 1977 (que pode ser baixado pelo site Memória da TV). "The Doors" ficaria excelente com suas cenas cortadas, entre outros. O espectador sempre merece mais e isso independe do filme ser musical ou não, o que, de fato, importa são os bônus que o consumidor cinéfilo tanto ama. Enfim, existem muitos exemplos que eu poderia citar aqui sobre "a versão do diretor" e suas vantagens em matéria de entretenimento, mas devido as circunstâncias de ocasião, eu só posso emitir opinião ou análise sobre a versão de "Cidade Dormitório", conferida em sua estreia na última sexta-feira, em Porto Alegre.


Lesi Morato, em um papel de destaque no longa-metragem.

Cenas selecionadas pelo realizador.


Lucas Sampaio, em cena livre.


  Tudo que eu disse continua valendo, entretanto, imaginei que encontraria um filme com ritmo vertiginoso, o que não exclui suas qualidade principais, entre elas de convidar o espectador a deitar no dormitório e refletir sobre uma sociedade que pouco evoluiu moralmente desde o século XX (o filme mostra o egoísmo universal, os vícios materiais e a descrença num futuro existencial). Muito boa a presença da atriz Lesi Morato e da já citada Martina Pilau, e também dos atores que participam do equilíbrio racial do elenco, Edimilso Silva (revelando-se versátil) e Sirmar Antunes (este um veterano de vários longas, entre eles, "Neto Perde sua Alma"). Também foi uma feliz ideia de Evandro transformar seu apreço pelos animais em uma das histórias contadas (o filme não oferece um protagonista único e sim múltiplos seres em conflito e demasiadamente fragmentados), lembrando que muito tempo atrás o cineasta publicou fotos em seu Facebook resgatando um gatinho preto, que havia sido jogado dentro de um bueiro há alguns metros de sua residência. (Então pergunto: alguém consegue imaginar algum ator de TV fazendo isso sem partir para o artifício de virar manchete mais pelo sensacionalismo que pelo ato benevolente?). Daí em diante, confesso que passei a admirar o "cidadão" Evandro Berlesi e não apenas o cineasta propriamente dito. Claro que outros "profissionais" possivelmente também resgatariam o bichinho, mas a grande maioria passaria em branco. Os maus tratos para com os gatinhos e cachorros são um dos fios condutores do filme, culminando no final à la Frank Capra (mestre do cinema clássico que realizou filmes onde o bem sempre vence o mal, mas apresentando uma lição de modo inteligente). A diferença é que, em "Cidade Dormitório", Evandro Berlesi se transforma em um Frank Capra dos pampas, porém, um benevolente nada conservador, que nunca abandona o humor que só existe mesmo no Rio Grande do Sul (afinal são poucos que conseguem entender o significado das expressões no resto do país). Nas entrelinhas, na dupla cômica de personagens que adere a corrupção, em troca de bebidas para uma festa com amigos, mostra que a "balaca" (ou balaquice) ainda é uma atitude muito peculiar entre os gaúchos. No caso dos tipos, rola uma "balaca dos trouxas", que se acham muito espertos e que, consequentemente, por linhas tortas (põe linhas tortas nisso), acabam se dando bem (sem spoilers). Em contrapartida, Berlesi abre mão de se aprofundar nos conflitos entre os casais, a fim de não perder o foco no individualismo gritante de boa parte dos personagens. Melhor assim.

O elenco reunido na estreia.

  E pra fechar essa minha primeira análise sobre o longa-metragem em questão, outra coisa que apreciei muito foi o realizador não cometer o deslize de usar o título de um trabalho já existente, já vimos isso com filmes como "Sem Saída", "Presença de Anita" (no caso de uma série que usou o mesmo título de um clássico do cinema nacional), etc. Já existe um longa chamado "O Dormitório", de Rachel Talalay, e Evandro Berlesi foi prudente ao batizar seu novo trabalho de "Cidade Dormitório". Embora o filme de Rachel seja uma produção americana, creio que rebatizar com título em português de uma obra já existente é uma tremenda bola fora dos realizadores brasileiros da atualidade. Evandro, neste caso, brindou o público com um nome composto que, embora seja anticomercial, oferece sua simpática singularidade.




Assista no you tube o tease do longa "CIDADE DORMITÓRIO".






AS ENTREVISTAS EXCLUSIVAS QUE FIZ COM OS ATORES DO FILME PODERÃO SER ASSISTIDAS NA PRÓXIMA POSTAGEM DESTE BLOG. AGUARDE PARA BREVE.



UMA CURIOSIDADE: CIDADE DORMITÓRIO TAMBÉM É O NOME DE UMA BANDA, PORÉM, O PRÓPRIO EVANDRO BERLESI JAMAIS TOMOU CONHECIMENTO SOBRE ISSO. rsrsrs E NEM TAL BANDA FAZ PARTE DA TRILHA SONORA DE SEU FILME. 


AGUARDO COMENTÁRIOS DE VOCÊS LOGO ABAIXO.